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Cadeira Nº 10

Sebastião Jorge

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Sebastião Jorge nasceu no município de São Bento-MA, a 20 de janeiro de 1939, onde iniciou os estudos. Na capital, graduou-se em Geografia e Ciências Jurídicas. Fez Pós-Graduação em Jornalismo e atuou nos seguintes jornais: O Dia, Pacotilha – O Globo, O Imparcial, Correio do Nordeste, Diário da Manhã, Jornal de Bolso e A Tribuna. No interior do estado, publicou crônicas no Jornal de São Bento. Também foi colaborador da revista Desportos e Lazer e trabalhou como correspondente da revista Visão, de São Paulo. Foi redator das rádios Gurupi e Timbira e da TV Difusora. Vislumbrando as potencialidades do mundo virtual, estendeu suas narrativas à rede mundial de computadores. Manteve, de forma pioneira, uma página semanal on line no provedor HCG. Atualmente possui uma série de artigos disponíveis em um site do provedor IG e é colaborador do Observatório da Imprensa, um dos mais importantes sites sobre jornalismo. A vida acadêmica consolidou a paixão pelo jornalismo e pela arte de escrever. Fez parte da equipe pioneira que implantou o Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão, fundado em 1969. Na Academia Maranhense de Letras, ocupa a Cadeira n0 10, como sucessor de Jomar Moraes.

 

Bibliografia

 

  • Pesquisa em Comunicação, 1974.
  • O jornalismo hoje, 1978.
  • Os primeiros passos da imprensa no Maranhão (1821-1841), 1987.
  • A Linguagem dos Pasquins. São Luís: Lithograf, 1998.
  • Política movida a Paixão: o Jornalismo Polêmico de Odorico Mendes, 2000.
  • Cenas de Rua. São Luís: EDUFMA, 2003.
  • A imprensa no Maranhão no século XIX (1821-1900). São Luís: Lithograf, 2008.
  • Inovações do jornalismo no mundo. São Luís: EDUFMA, 2010.

 

REFERÊNCIAS PARA ESTUDO:

 

 

 

JOÃO FRANCISCO LISBOA

O POLEMISTA MARANHENSE QUE TRIUNFOU NA CORTE

 

Quando a opinião dominava a cena do jornalismo brasileiro e o fato político discutido com matizes literárias era considerado por excelência o prato do dia, eis que surge um mestre para revolucionar a palavra, as ideias, o estilo, o que lhe daria merecidamente o título de um dos maiores jornalistas do século XIX.  Seu nome: João Francisco Lisboa, autodidata, maranhense de Pirapemas, então pertencente ao município de Itapecuru (MA), nascido em 22 de março de 1812 e morto em Lisboa (Portugal), 1863.

Ele era apaixonado pela imprensa, mas esta condição não lhe tirava a coragem de fustigá-la, criticá-la com gravidade, quando achava que os colegas jornalistas estavam abusando da ética.

No famoso Jornal de Timon, que se traduz como uma das páginas mais fiéis no Brasil, sobre uso, costumes e abusos de uma sociedade, em particular moldada pelos desvios da política, comenta a situação de quem fazia jornal, com as dificuldades inerentes à profissão, para perguntar:

 

Quanto aos que pensaram fazer jornalismo um meio de vida, o que ganharam? Ele mesmo responde: Porventura um tardio arrependimento e uma profunda desolação?

 

Demonstrando achar-se decepcionado com os jornais da terra, pelos ataques pesados contra os inimigos que chegavam a invadir a privacidade, confessou:

 

Finalmente e para dizer em poucas palavras, quereis saber o que vale hoje, a nossa imprensa propriamente dita política nesta província ao menos?Suprimi-a e vereis que a sua falta passará completamente despercebida, sem que uma só pessoa desinteressada dê fé do acontecimento, ou proteste contra ela.

 

Honoré de Balzac (1799-1850), outro crítico da imprensa francesa da sua época havia dito algo parecido ao sentenciar:

 

Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la.

 

Novo Jornalismo

 

Em meados do século XX um grupo de jornalistas americanos, liderados por Tom Wolfe, Truman Capote, Gay Talese, Lilian Ross criou um novo estilo de escrever, ao qual chamaram de new journalism (novo jornalismo), cujo recurso era combinar as características da boa reportagem com técnicas literárias, geralmente ligadas à ficção: diálogos extensos, confronto de pontos de vista, realismo altamente detalhista e descrições vividas de pessoas e locais, além de caracterizações complexas – George Plimpton (da revista Paris Review).

João Lisboa, no recuado ano de 1851, no jornal Publicador Maranhense, fez algo parecido, ao divulgar um texto no espaço reservado ao folhetim. Logo o mesmo passou a ser conhecido como pertencente a esse gênero, uma vez que a reportagem, como a conhecemos, viria a aparecer décadas depois, ou mais precisamente no Brasil, no final do século XIX. Título do texto: A festa dos mortos ou A procissão dos ossos. Usando dos recursos da fantasia e do real, conta o desfile de um cortejo de almas, que percorre as ruas da cidade, para insinuar: Eu vi descer o fúnebre préstito, por uma de nossas ruas. E imagina ter olhado muitos conhecidos, com Caim e Abel, além de outras por ele identificadas.

A procissão acontece véspera do dia de Finados. Compõe-se de extensas fileiras de irmandades e padres, de círios, lanternas e archotes. As almas do purgatório saem sob a forma visível e palpável dos ossos, a solicitar pelas ruas as orações dos tíbios remissos ou enfermos, que se deixaram ficar em suas casas. Quem sair à janela receberá uma vela, que se transformará num osso da perna, segundo a crendice popular.

Eis o verossímel. A seguir os fatos… Critica a situação do principal cemitério da província, Gavião, sujo, com mato onde pastam galinhas e patos e fala de outros campos santos; diz que as igrejas recebiam para sepultamento pessoas importantes, enquanto os cemitérios eram reservados à gente humilde, pagã e aos escravos, que chegavam aos milhares da África e só escapavam pela morte; descreve a paisagem da cidade que fica mais bonita sendo olhada do alto; fala de René Chateaubriand (1768-1848), que o francês famoso, ligado à religião e reproduz versos do Dia de Finados, do poeta maranhense Augusto Frederico Colin. Há mais.

 

A Reportagem

 

A reportagem embora tendo em Paulo Barreto, o João do Rio, um pioneiro, um novo texto de João Lisboa, publicado no mesmo jornal, com o título de A festa de Nossa Senhora dos Remédios, deve ser olhada com alguma semelhança. Aqui, faz incursões no jornalismo informativo, naturalmente sem desprezar a opinião, próprio da época, com a enumeração de detalhes que a curiosidade captou.

O jornalista descreve o ambiente da festa, com seus personagens, não se esquecendo de exaltar a elegância dos homens e mulheres, cujas roupas caras eram feitas com panos importados da Europa, e para tanto, chegavam em navios abarrotados de mercadorias, que produziam a febre do consumo, tão comum em nossos tempos, como: chapéus, luvas, vestidos, sedas, plumas, rendas, fitas, flores, pomadas, cheiros e todas os demais gêneros que dão vida e saúde às lojas e [sangram] a algibreira dos fregueses.

Dá outros detalhes da festa: descreve o foguetório que precede as novenas, o toque dos sinos chamando os fiéis, os sermões e os erros de gramática cometidos pelo padre, os balões coloridos, os cabeleireiros franceses, a música e a voz de uma cantora a quem rasgou os maiores elogios. A capacidade para descrever é grande. Penetra no clima da festa e enumera os preparativos que conta com os sapateiros, costureiras e modistas, os quais não dão conta das encomendas.

 

(JORGE, Sebastião Barros. Inovações do jornalismo no mundo. São Luís: EDUFMA, 2010, p. 21-23.)

 

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