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Cadeira Nº 01

Sebastião Moreira Duarte

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Biografia

Sebastião Moreira Duarte nasceu no sítio Olho d’Água do Melão, município de Baixio-CE, a 2 de março de 1944. Filho de Cícero Moreira da Silva e de Raimunda Alodias Duarte. Fez o primário em Cajazeiras-PB e o secundário nos Aspirantados Salesianos de Recife, Carpina e Jaboatão. Em São Paulo, frequentou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Abandonando a vida religiosa, radicou-se no Maranhão, a partir de 1965. Licenciado em Filosofia e Pedagogia, é professor aposentado da Universidade Federal do Maranhão, onde ingressou em 1972. Mestre em Administração Universitária pela Universidade do Alabama, e doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. No Brasil, exerceu atividades docentes e administrativas em universidades do Maranhão e da Paraíba. Foi visiting scholar das universidades de San Diego, na Califórnia, e de Illinois (Urbana-Champaign), além de professor da Universidade do Tennesse, em Knoxville, nos Estados Unidos. Tem publicado diversos trabalhos em periódicos educacionais e literários do Brasil e do exterior. Entre 1999 e 2001 foi um dos colaboradores da coluna “Sacada”, de O Imparcial. Coordenador editorial da coleção “Maranhão Sempre”, pela qual foram publicados 24 títulos da bibliografia maranhense, com o selo da Editora Siciliano (SP) e sob o patrocínio do Governo do Estado do Maranhão. Atualmente presta colaboração editorial ao Instituto Geia, pelo qual tem trabalhado em numerosas publicações. Na Academia Maranhense de Letras, ocupa a Cadeira n0 1, como sucessor de Antenor Bogéa.

Bibliografia

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  • 1) Novena de Natal. São Luís: UFMA/Prexae/Funarte, 1977. (Poesia)
  • 2) Canto essencial. Campina Grande: Bruxaxá, 1979. (Poesia)
  • 3) Calendário lúdico. São Luís: Sotaque Norte, 1998. (Poesia)
  • 4) O périplo e o porto.  São Luís: Edufma, 1990. (Ensaio)
  • 5) Estudos sobre o mosaico. São Luís: Edufma, 1992. (Ensaio)
  • 6) Épica americana: O Guesa, de Sousândrade, e o Canto general, de Pablo Neruda (Ensaio). Urbana, IL (USA): University of Illinois (este livro, ainda inédito, resulta de tese de doutoramento).
  • 7) A épica e a época de Sousândrade. São Luís: Edições AML, 2002. (Ensaio)
  • 8) Crônicas de Campo Serrano. Campina Grande: Pontaria, 1980. (Crônica)
  • 9) Do miolo do sertão. João Pessoa: Grafset, 1988; (2. ed., Brasília, Senado Federal, 1992; 3. ed., São Luís: Sotaque Norte, 2012). (Memória)
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  • Álbuns Históricos (com fotos de Albani Ramos): 
  • 10) Brinquedos encantados. São Luís: Instituto Geia, 2003. (Ed. trilíngue: port.-esp.-ingl.)
  • 11) São Luís: Alma e história. São Luís: Instituto Geia, 2007. (Ed. trilíngue: port.-franc.-ingl.)
  • 12) Maranhão: História, cultura, natureza. São Luís: Instituto Geia, 2010. (Ed. trilíngue: port.-franc.-ingl.)
  • 13) Alcântara: Alma e história. São Luís: 2011. (Ed. bilíngue: port.-ingl.)
  • 14) DEWEY, John. Meu credo pedagógico. Tradução de Sebastião Moreira Duarte. Campina Grande: Grafset, 1980. (Tradução)
  • 15) SHARPE, Peggy.  Espelho na rua: a cidade na obra de Eça de Queirós. Tradução de Sebastião Moreira Duarte. Rio de Janeiro: Presença, 1989. (Tradução)
  • 16) MALIGHETTI, Roberto. O Quilombo de Frechal. Tradução de Sebastião Moreira Duarte. v. 81. Brasília: Edições do Senado Federal, 2007. (Tradução)
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  • Edição de Texto, com Introdução e Notas:
  • 17) Padre Mestre Inácio Rolim, do Pe. Heliodoro Pires. Teresina: Gráfica e Editora Estado do Piauí, 1991.
  • 18) Extrato de gramática grega, do Padre Inácio de Sousa Rolim.  Teresina: Halley, 1993. 
  • 19) Noções da história natural, do Pe. Inácio de Sousa Rolim.  Teresina: Halley, 1993.
  • 20) Virgílio brasileiro (1º v. Bucólicas e Geórgicas), de Manuel Odorico Mendes, São Luís: Edufma, 1995.
  • 21) Antologia poética, de José Chagas.  São Luís: Edufma; Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.
  • 22) Traduções de Voltaire (tragédias Mérope e Tancredo). São Luís: Edições AML, 1999.
  • 23) Vida e obra do Padre Rolim (contendo o Extrato de gramática grega e Noções da história natural, do Pe. Inácio de Sousa Rolim, e O educador dos sertões, de Deusdedit Leitão, com prefácio de SMD. Brasília: Senado Federal, 2000.
  • 24) As armas e os barões assassinalados.  São Luís: Sotaque Norte, 2000.
  • 25) A Balaiada, de Astolfo Serra. 3. ed. São Luís: Instituto Geia, 2008.
  • 26) Memórias e Memórias inacabadas, de Humberto de Campos. São Luís: Instituto Geia, 2009.
  • 27) Diário secreto (2 v.), de Humberto de Campos. São Luís: Instituto Geia, 2010; 
  • 28) Compêndio histórico-político dos princípios da lavoura do Maranhão, de Raimundo José de Sousa Gaioso. 3. ed. São Luís: Instituto Geia, 201?. 
  • 29) Dr. Bruxelas & Cia, de Fulgêncio Pinto. São Luís: Instituto Geia, 2013.
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  • Discursos e conferências: 
  • 30) Na Casa de Antônio Lobo (com José Chagas). São Luís: Edições AML, 1998. 
  • 31) Posse na Academia Maranhense de Letras (com José Maria Cabral Marques). São Luís: Edições AML, 2002.
  • 32) Na Casa dos Cem Anos São Luís: Edições AML, 2008.  (Com Carlos de Lima).
  • 33) Padre Inácio Rolim, ontem e hoje. São Luís: Sotaque Norte, 2010;
  • 34) A José Sarney, em seus 80 anos. São Luís: Edições AML, 2012.
  • 35) Saudação de Sebastião Moreira Duarte a Antônio Carlos Lima. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, ano 92, vol. 27, p. 31-43, jun. 2016.
  • 36) Discurso de Saudação a Turíbio Santos por Sebastião Moreira Duarte. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, ano 92, vol. 28, p. 25-40, out. 2016.
  • 37) Manuel Odorico Mendes e a Identidade européia do Brasil. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, n0 33, p. 23-39, abr./jun. 2021.

Referência para estudo

1) CHAGAS, José. Discurso de Recepção a Sebastião Moreira Duarte. São Luís, 20 mar.1998.

2) ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS. Perfis Acadêmicos. 5. ed. Pesquisa, textos e organização de Jomar Moraes. São Luís: Edições AML, 2014

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UM NOME SEM ROSTO


Os dias, de tão bons, são todos iguais. Tudo é igual nos horizontes de nossa infância sem limites, tempo claro, com cheiro de curral e melaço de engenho. O sítio Olho d’Água do Melão se esconde como um segredo ao pé da serra. Graças a Deus. Lá em cima é que está a estrada que divide o Ceará da Paraíba. Na estrada passam tropas de burros carregando algodão, oiticica, rapadura. Às vezes os burros se espantam e desgarram com o ronco dos primeiros caminhões. Como podem as pessoas na estrada adivinhar que, nessa grota escondida, Deus deixou um pedaço do seu paraíso para os filhos do Mestre Matias?

A meninada vai abrindo os olhos ao mundo, quase cuidando de não crescer, no medo inconsciente de que o paraíso desapareça e o mundo perca o seu encanto.

Aos poucos, é verdade, se alongam os idos de 1913, quando o paraibano Matias Duarte Passos, já viúvo por quatro anos, encontra a jovem Angelina Guedes Rolim – Dosanjo, como passará a ser conhecida – do mais tradicional tronco das cajazeiras, na Paraíba, e com ela constrói a sua segunda família. Uma família que ele vai fazendo crescer com pressa de nordestino. Nesse novembro de 1925, aí já estão Alodias, com onze anos, Maria Virgem, com dez, Stela, com oito, e os meninos Waldemar, com quatro, Francisco, com três, e o caçula, Micena, com menos de dois. E a mulher, grávida de sete meses, está a seu lado para garantir que, com as bênçãos de Deus, terão novo rebento na família entre fevereiro e março de 26.

Esses, os filhos pequenos. Porque Dona Dosanjo tem outros “filhos” do primeiro casamento de Matias: Teté, Doiô e Nanã já casaram, pois têm quase a mesma idade de Mãe Dosanjo. Em casa estão ainda Júlia, a mais nova das mulheres, e José Matias, com 21 anos.

A casa não é grande, mas está bem plantada no meio do sítio, de paredes meias com a bolandeira e o engenho. À frente, o amplo pátio termina na porteira do curral. Da calçada alta se avistam o açude e a vazante. O quintal abre para o baixio, por onde o olho d’água se derrama em córrego.

E que mundo de fartura! Além do leite, do queijo e da coalhada, temos a rapadura, a batida e o alfenim, mais a cana de açúcar fácil para descascar ou rasgar no dente, depois de colhida no eito e quebrada no joelho. A banana babona será a “marca” de Mãe Dosanjo na memória de filhos e netos. Os mais velhos passam horas e mais horas nos mais altos galhos das goiabeiras, as mais férteis goiabeiras de que se tem notícia. Aos pequenos conta histórias encantadoras: o coqueiro do quintal vai ficando corcunda de tão velho, e já está caducando. A essas alturas, ninguém sabe mais quem o plantou, e o coqueiro velho também já não sabe o que faz: em vez de botar coco, está dando quiabo, maxixe, cebola, coentro. De outro, mais por meio do baixio, se diz que está estragado por causa da saparia que tem ao pé; toda vez que a ente vai abrir um coco para beber água, salta um calote de dentro dele.

Esse paraíso infantil terá na pessoa de “Padrinho Matias” ou “Meu Mestre”, como ele é chamado por muitos, aquele que o plantou e que o assegura para todos ao redor.

Mestre Matias é um homem moreno, talhado na média estatura sertaneja, franzino e ágil. Os cabelos partem de um ponto definido na testa e se repartem sobre as orelhas, para dar destaque ao brilho dos olhos claros. De nada disso eu me lembro, mas ainda hoje ouço dizer que meu pai era muito querido como professor de todos os que sabiam ler no Melão, além de juiz de casamentos, nomeado que foi pelo presidente do Ceará, Antônio Pinto Nogueira Accioly.

Enfim, um homem que inspirava paz e serenidade. Para ele também, junto com a mulher e os filhos, os dias eram todos iguais.

Mas o que foi isso que meu pai viu lá pata o Alto da Aroeira? São dez horas da manhã. Matias está em casa para o almoço, conforme é tradição nesses tempos. Levanta-se para sair. Do alto da calçada, vê um boi que está comendo a roça. Não tendo por quem chamar naquele momento, corre ele mesmo a tanger o animal. Mas onde está o caminho da saída? E por que agora ele se sente, de súbito, mais atordoado que o bicho, uma coisa estranha a fisgá-lo por dentro?

Meu pai volta para casa quase se arrastando. A dor é enorme. Ele se prostra numa rede e clama por socorro. São muito poucas as possibilidades de removê-lo dali, ele não suportaria ser carregado. Dão-lhe remédios caseiros, fazem-lhe sucessivas lavagens. Mestre Matias chama a família. O que mais lastima é deixar a jovem esposa carregada de crianças para criar. É inútil consolá-lo. Ele está consciente do que se passa:

– Estou me acabando, Deus que me receba.

Mas a agonia passa por um momento. Ele se senta. Faz algumas recomendações à mulher e abençoa os filhos. Micena, o filho caçula, sem saber o que está fazendo, entrega-lhe um brinquedinho tosco que tem em mãos e coloca as suas mãos dentro das do pai, balbuciando palavras que ainda não sabe articular.

São duas e meia para três da tarde de terça-feira, 24 de novembro. Meu pai solta o corpo contra a rede. Minha mãe acode:

– Corram, Matias está morrendo!

No dia seguinte, é no colo de Alodias, minha irmã mais velha, que vejo pela última vez o rosto de meu pai, no caixão em meio à casa. Quando o enterro sai, eu choro porque vejo os outros chorarem. Mas eu sei que sou um menino de três anos incompletos para quem acabaram os dias bons e iguais. O paraíso acabou.

Meu pai era um homem de 64 anos, que nunca antes houvera se queixado de doença alguma. Do Mestre Matias, tão querido e lembrado por todos, não ficou, porém, um único retrato que pudesse guardar para os filhos os traços de seu rosto. Reconstruo pela memória dos irmãos mais velhos a nebulosa lembrança que tenho de sua figura, se poder fixar na retentiva um perfil definido de sua pessoa.

Ao fazer esse registro, dou por mim diante de tantos leitores anônimos, contando-lhes os passos marcantes de minha trajetória. Pergunto-me se não estou procedendo assim, numa tentativa inconsciente de compensar para os meus filhos o que meu pai não teve tempo de fazer com os seus.



(DUARTE, Sebastião Moreira. Do miolo do sertão. 3. ed., São Luís: Sotaque Norte, 2012, p. 19-23).


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