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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


Visitadores no domingo

31 de dezembro de 2017

Domingo, dia de lazer e preguiça. À tarde, eu e meu companheiro de cama e mesa, velhuscos que somos, ficamos assistindo filmes ou noticiários preguiçosamente recostados, no dolce far niente. Às vezes, algum ruído, uma campainha, nos faz desviar o foco para as câmeras externas e perscrutar a rua, quase sempre deserta. Passa um cachorro, uma carrocinha de sorvete rumo à praia, alguns jovens a pé, uma motocicleta. Que belo o colorido do céu! Afastado o receio de uma ameaça dos meliantes de plantão, o passear das câmeras fica até divertido, creiam.

De uns meses para cá, novidades. Começam a aparecer magotes de novos passantes, homens e mulheres de aparência madura, trajando roupas um tanto soturnas, compridas, com ar passadista. Tranquilos, andam em bloco. Não chegam a despertar medo, só estranheza: ninguém, fora os jovens praianos, caminha aos domingos por estas ruas desertas. Pelas características identificamos que são religiosos, de uma conhecida religião do ramo judaico-cristão.

Nada contra um passeio de amigos que aproveitam a fresca da tarde. Mas, de repente, o grupo divide-se militarmente em grupos de dois e cada par se dirige a uma casa diferente, param defronte à porta e tocam a campainha com insistência. Uma, duas, três vezes. Ninguém aparece ou dá sinal de vida no interfone. Parece que são casas desabitadas. Isto se repete domingo após domingo.

Serão os moradores pessoas desalmadas, insensíveis, a deixar veneráveis senhoras e senhores parados às suas portas? Certa vez, tocados, digamos, de solidariedade humana, convidamos um casal a entrar, servimos água e deixamos que dissessem a que vinham. Duas horas depois, desesperados, exaustos, sem argumentos, considerados pecadores sem remissão, às portas da condenação eterna, ameaçados com o fogo do inferno, conseguimos levar ambos até à porta, pô-los para fora, com o pouco de civilidade que nos restava, e passar a chave. Desde então, resistimos, impassíveis, aos toques da campainha, interfone, aos latidos do cachorro e à visão das imagens de pessoas humildes, ordeiras e pacíficas querendo apenas um dedinho de prosa sobre Jesus, sem sair da nossa zona de conforto das almofadas.

O que leva alguém a sair de suas casas numa tarde de domingo e importunar desconhecidos que não estão nem um pouco interessados em serem cooptados por uma nova religião? Quem sofre de dúvidas de fé procura templos e pastores que pululam, ambos, por aí. Essas caravanas me dão a estranha e inquieta sensação de estarmos sendo farejados para depois sermos apontados e caçados. Talvez nos pespeguem uma estrela amarela ou de qualquer outra cor no peito para que sejamos diferenciados dos eleitos.

Não falam em seus próprios nomes, entram “em nome de Jesus” e falam por Ele, Jesus, que não invadia casas para pregar. Era convidado para esponsais, banquetes e funerais, por amigos e discípulos. As pessoas acorriam às suas pregações nos campos, beira dos lagos e encostas das montanhas. Tratava com respeito centuriões, prostitutas, adúlteras e samaritanos. Convivia com pescadores e pastores ignorantes e chamava de sepulcros caiados sacerdotes de sua própria religião.

Ah, Jesus, vem ver os avantesmas intolerantes que se acham os únicos dignos de salvação, os preconceituosos que condenam os diferentes e quebram imagens, feito talibãs. Gostaria de ver Jesus com um chicote botando pra correr essa malta de proprietários do seu nome.

Ceres Costa Fernandes

Mestra em Literatura e membro da Academia Maranhense de Letras

E-mail: ceresfernandes@superig.com.br