Blog

Academia Maranhense de Letras

Jomar Moraes

Cadeira 10


Vespasiano Ramos – I

18 de agosto de 2010

Jornal: O Estado do Maranhão
18 de agosto de 2010 - quarta-feira
Por: Jomar Moraes

Hoje e pelas próximas quartas-feiras publicarei aqui, objetivando facultar-lhe, potencialmente que seja, maior circulação, o texto que, com o título de Nota Introdutória, abre o recente livro por mim organizado sobre o bardo de Samaritana.

Joaquim Vespasiano Ramos (Caxias-MA, 13 de agosto de 1884 – Porto Velho-RO, 26 de dezembro de 1916), nascido numa família de modestas posses econômico-financeiras, era filho do capitão Antônio Augusto Ramos e sua mulher, D. Leonília Caldas Ramos. O poeta e seu irmão Heráclito Vespasiano Ramos, que também versejava, fizeram em Caxias os estudos regulares que na época ali eram ministrados. Apesar do relativo florescimento cultural caxiense, representado pela existência de teatro, jornais, tertúlias literárias e outras manifestações culturais, a cidade não oferecia perspectivas maiores aos talentosos irmãos Ramos, além de precários empregos no comércio. Transferem-se os dois irmãos para São Luís, onde tomam destinos diversos: Heráclito engajou-se responsavelmente no comércio, atividade em que, após o bem-sucedido desempenho de funções auxiliares, ascendeu a patrão, ao tornar- se sócio da firma Leão Ramos & Companhia, que alcançou grande sucesso na praça de São Luís. Admira que, a despeito de seus compromissos empresariais, Heráclito haja mantido regular atuação na vida literária da capital. Foi vice-presidente do Congresso Maranhense de Letras, entidade literária fundada em 1º de outubro de 1909, um dos redatores e constante colaborador da revista mensal Os Anais, órgão da mencionada associação. Enquanto isso, o poeta de Samaritana teve no comércio de São Luís, atuação irregular, marcada por faltas ao serviço e periódicas viagens para Caxias, Belém e outras localidades amazônicas. Como se sabe, deve-se ao fraterno mecenato de Heráclito a iniciativa da viagem de ambos ao Rio de Janeiro, onde o irmão capitalista bancou a edição do livro de seu mano perdulário e boêmio. Desregramentos deste, em chegando à Cidade Maravilhosa, levaram Heráclito a ameaçar o rompimento do compromisso financeiro da edição de Cousa alguma…, fato que levou o poeta escrever-lhe comovedora carta transcrita por Walfredo Machado (“Vespasiano Ramos, ilustre maranhense de Caxias”. Rio de Janeiro: 1969) sem indicação da fonte de que se valeu, e reproduzida por Cursino Raposo, que incorre no mesmo erro (vide “Autógrafos de Vespasiano Ramos”. Rio de Janeiro, Museu Histórico Nacional, 1974).

Acerca de Vespasiano Ramos parece acertado afirmar, com respaldo no conhecimento de sua obra, que se trata de um poeta maranhense simples. Tal assertiva, entretanto, não autoriza ninguém a concluir seja o autor de Cousa alguma… um simples poeta maranhense.

E o mesmo se diga, embora com ênfase sensivelmente atenuada, se acaso essa afirmação tiver por âmbito o parnaso nacional.

Quer seja a primeira, quer seja a segunda alternativa, o pano de fundo será sempre o multi-imbricado período pré-modernista, em que se situa, cronologicamente falando, a obra de Vespasiano Ramos, gestada no entrecruzamento agônico do par assimétrico parnasianismo/simbolismo, cujo advento, entre nós, ocorreu retardatariamente, circunstância que possivelmente explica o descompasso com que aqui vigeram todos os estilos de época posteriores ao romantismo.

Acrescente-se a esses condicionamentos exteriores, o fato de ser o poeta de Cousa alguma… uma individualidade visceralmente atrelada à prática e à estética do romantismo derramado, excessivo, lacrimoso e… dir-se-ia anacrônico, desde que se pretendesse estabelecer uma inusitada sincronia entre a obra de Vespasiano Ramos e o romantismo entendido apenas como estilo de época.

Acontece, entretanto, que muito ao contrário de tão-somente estilo de época, o romantismo, para e em Vespasiano Ramos, era um estilo individual, um modo essencial e insubstituível de ser e de sentir.

Em bela página evocativa dedicada a Vespasiano, mas na qual entram outros importantes poetas contemporâneos do autor de Cousa alguma…, Antônio Lopes escreve:

Ele foi o poeta do amor,que sabia exprimir o amor com simplicidade e com delicadeza.O seu verso não tinha o crepitar de incêndio e o tropel de batalhas que vibram na poesia de Corrêa de Araújo,nem o requinte bizarro dos sonetos desse grande sonetista que era Maranhão Sobrinho.Mas tinha naturalidade como nenhum dos outros possuía.

Se se quisesse marcar numa frase a diversidade que separa estes três poetas, dever-se-ia dizer que os versos de Corrêa de Araújo exaltam o cérebro, os de Maranhão Sobrinho embriagam os sentidos e os de Vespasiano Ramos vão direto ao coração.

Vê-se bem qual seja a inspiração que fazia Vespasiano Ramos, entre os poetas novos do Maranhão, o poeta preexcelente do amor.O amor era para ele o …eterno e grande sentimento

Havia para o poeta, nesse velho tema, um filão inesgotável a explorar.E, por isso,o amor era o assunto favorito dos seus versos.

E já que tal assunto foi tangenciado, importa sobremaneira trazer à colação, o trabalho ainda inédito intitulado Páginas de saudade, de Crisóstomo de Souza, pesquisa do escritor Luiz de Mello, e cujo primeiro capítulo tem por título Heráclito Vespasiano. A certa altura diz Crisóstomo de Souza:

“E tanto é para se lhe louvar,agora,um nobre gesto que teve para com o seu irmão, o poeta Vespasiano Ramos, fazendo de generoso Mecenas provinciano, reunindo várias poesias suas [de Vespasiano Ramos] e entregando-as a Antônio Lopes para que este, a seu juízo crítico, escolhesse as dignas de serem enfeixadas em volume. Foi o que esse luminoso espírito de grande ateniense fez – escoimando-as de vícios e impurezas, organizou o Cousa alguma… com que se ia estrear o ilustre bardo caxiense”.