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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Uma épica batalha

23 de novembro de 2019

Um tesouro literário está disponível ao alcance de um clique no site do computador da Biblioteca do Senado Federal e que apresenta um acervo expressivo sobre a formação do Maranhão. Trata-se da obra “Historia da Companhia de Jesus na extincta província do Maranhão e Pará”, escrito pelo padre José de Moraes, em 1860, na qual o sacerdote narra diversos acontecimentos históricos e entre estes, as peripécias vividas por Jerônimo de Albuquerque Maranhão, no decurso da famosa batalha de Guaxenduba, que no último dia 19, completou 405 anos.

A batalha deu-se no atual povoado de Santa Maria, localizada no atual município de Icatu, onde deu-se o encontro do exército francês – em número e armas muito mais superiores – liderado por Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, herói de guerra e o exército português, sob o comando do mameluco Jerônimo de Albuquerque, brasileiro de nascimento, tendo como pai um português, de quem herdou o nome Jerônimo de Albuquerque e, como mãe, a índia Uirá Ubi (que recebeu o nome cristão de Maria do Espírito Santo Arcoverde). A motivação? A disputa pelo Maranhão travada por Portugal e França.

A história é instigante sob todos os aspectos e foi assunto do evento promovido, na última terça, dia 19, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, comandado pelo meu confrade Euges Lima, e que contou com a participação de ilustres convidados, a exemplo do professor José Almeida, autor da obra “Icatu, Terra de Guaxenduba”, do presidente da Casa dos Açores do Maranhão, Paulo Matos e do escritor belga Frans Gistelinck, autor da obra “1612, A França Equinocial: encontro de dois mundos na Ilha do Maragnan”.

No capítulo IX da obra do padre José Moraes, ele narra que, sob o comando de Jeronimo de Albuquerque, a Jornada do Maranhão chegou, em 28 de outubro, até o ponto denominado Guaxenduba, embarcados em cerca de três navios pequenos e cinco barcos armados em guerra, guarnecidos de 300 soldados e índios “em número suficiente”. Do lado dos franceses, “400 soldados, os melhores da praça, 4 mil índios, embarcações de alto bordo e muitas outras canoas”. A disparidade era evidente. Mas o escritor dá conta de que Jerônimo de Albuquerque “não perdeu, contudo, o ânimo, porque tinha coração para maiores empresas, antes tomando do mesmo perigo para melhor animar os seus soldados”, formando então dois batalhões, que ficaram aos cuidados de Diogo de Campos e Manoel de Souza D´Eça, seus auxiliares, após algumas perdas em favor dos franceses.

Estava em jogo não apenas o futuro do Maranhão, mas também a reputação de Jerônimo de Albuquerque como estrategista de guerra. Depois de organizar seus batalhões, assim ele se dirige aos seus soldados, num discurso que vale a pena tornar conhecido, nos exatos termos do excerto do livro do Padre José Moraes (com o português com que foi escrita a obra): «(…)Não vos mando como superior, pois só vos quero advertir como soldado. A justiça da nossa causa he tão infallivel, como certa a usurpação que se fez desta conquista ao nosso Soberano. Obra será digna da historia, como em numero tão pequeno tirarmos das mãos a inimigo tão poderoso huma Colonia, na qual tem despendido tantos cabedaes, sem mais lucro que as futuras esperanças que o nosso valor pretende hoje totalmente desmentir, arrancando por uma vez as raizes de huma tão insaciavel cubiça. Não nos assuste o excesso do numero, porque ainda o julgo pequeno á fortaleza das nossas espadas. (…) Animo, valerosos soldados, que a Virgem Senhora nos ajuda e o mesmo céo nos defende » p. 60, (grifou-se).

O resultado da batalha é conhecido. Mesmo em menor número de homens e armas, venceu o exército português, no dia 19 de novembro de 1614, deixando um saldo de 300 franceses mortos e aproximadamente 500 índios e uma aparição milagrosa, também registrada na obra mencionada, da Virgem Vitória, a quem se atribuiu o auxílio em favor dos portugueses, com o retardamento da enchente da maré. Estes, gratos, dedicaram-lhe a cidade de São Luís, erguendo a Catedral da Sé em sua homenagem.

Após a batalha, Jerônimo de Albuquerque adotou ao seu sobrenome o termo Maranhão e aqui governou até 1618, ano em que faleceu. Acredito que pesquisadores podem acrescentar muito mais sobre tão instigante personagem, mas, sem dúvida, sua atuação na batalha já mencionada foi decisiva para a História do Maranhão, que herdamos.

Natalino Salgado Filho

Reitor da UFMA, médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA