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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


Um mote para as resoluções 2019

26 de janeiro de 2019

Entrei em 2019 desapercebida. 2018 foi tão rápido que, mal saído dos festejos juninos e ainda não esgotadas todas as confraternizações natalinas, eis que lá estavam todos aqueles fogos, luzes e rituais emblemáticos do Ano Novo. E se tanto não bastasse, as manchetes dos jornais do day after já saudavam os primeiros tambores do Carnaval. Fico a pensar: será que foi sempre assim ou a Terra está girando mais rapidamente sobre seu velho eixo?

A rapidez me deixou despreparada para a bem-intencionada e sempre desrespeitada lista de resoluções de cada início de ano. Para seguir a nova ordem, decidi tomar apenas uma abrangente resolução como baliza de atitudes, em 2019. Esboço uma proposição inspirada num velho desejo de ser cigarra: a escolha recai na máxima light contida no título daquela “Tô nem aí”. Essa relaxante e relaxada filosofia, vai ser ótima para a minha saúde mental e física, acho. O problema será apenas lutar contra a minha natureza, tão diversa. Fácil? Não. Mas, se assim não fosse, que valor teriam as resoluções de Ano Novo?

Ser light é estar na onda. Nada de preocupações estressantes, aquelas decorrentes de valores antigos e permanentes. Aliás, tenho um amigo codoense, o Jô Over Sea, (nome adotado depois de uma viagem aos States), ex-José Ribamar, que afirma: valor rima com bolor, e permanente, o único ainda aceito nos tempos pós-modernos é aquele aplicado nos cabelos.

Jô diz, com seriedade, que ele e sua tribo, “Os Descartáveis”, têm como norma a máxima de Lavoisier “Tudo se transforma”. “Daí, tudo é descartável, nada é permanente neste mundo, irmãzinha. É utilizar e descartar”. Atrevo-me a acrescentar que a famosa frase sobre a lei da conservação da massa do químico francês, usada popularmente até como sinônimo de aproveitamento de sobra de comida, dizia também que nada se perde, e, acho, não era bem essa a proposta do pai da química. Vocês já sentiram a inutilidade da ponderação ante alguém com tantas convicções e certezas. Deixo Over Sea impando de orgulho com a discussão ganha, e volto a pensar com o meu ri-ri.

Tem certa coerência o meu amigo – isolando, é claro, a imputação a Lavoisier. Vivemos num mundinho descartável. Descartáveis são as embalagens. Descartáveis são nossas roupas, que, se não se destroem após algumas lavagens, ficam fora de moda. Descartáveis são os eletrodomésticos, tão frágeis e tão caros os consertos – mais barato comprar um novo. Descartáveis são os veículos, cujos novos modelos desbancam os do ano anterior – não mais símbolos de status e de riqueza. O mesmo podemos dizer de relógios, telefones, e de tudo o mais que a mídia nos leva a consumir.

Esse desapego contamina também as relações humanas. Não se namora mais, fica-se. Os casamentos são rápidos, na primeira desavença, descarta-se o cônjuge. Filhos são mandados para creches ou para colônias de férias, e nos intervalos há a babá ou a TV. Para os velhos há os asilos ou o isolamento dentro da própria casa. Amigos, só os úteis aos interesses do momento. Velhos amigos podem lembrar épocas duras que é preciso esquecer, além disso, podem pedir dinheiro ou favores, sabe-se lá. Ë melhor descartá-los.

De reflexão em reflexão, lá se foi a brava resolução de ano novo. Descobri que não dou para esse negócio de ser light. Prefiro envolver-me com os problemas ancestrais de toda a nossa imperfeita humanidade. Quero viver me importando, mesmo que me ache uma masoquista idiota. Participarei ao Jô Over Sea que não farei parte de “Os Descartáveis”, em respeito a Lavoisier e à sopa do mesmo nome. Vou continuar perseguindo um mote para a minha resolução de ano novo, que, felizmente, ainda é janeiro.

Ceres Costa Fernandes

Mestra em literatura e membro da Academia Maranhense de Letras