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Academia Maranhense de Letras

Jomar Moraes

Cadeira 10


Um antigo aluno de meu Pai

5 de agosto de 2015

Com o recente passamento do nonagenário cururupuense Natalino Salgado, pai de meu amigo e confrade Natalino Salgado Filho, que presentemente muito e muito luta para finalizar no grande estilo que sempre caracterizou seu reitorado na Universidade Federal do Maranhão, onde está concluindo a gestão mais dinâmica e frutuosa de toda a história daquela instituição de ensino superior, acredito que haja desaparecido o último integrante de um grupo luzido de alunos de meu Pai.

José Alípio de Moraes Filho, meu saudoso Pai, era um sambentuense nascido em 1883, e que, a par de seus quatorze irmãos germanos (atenção! Escrevi quatorze irmãos germanos, o que importa falar numa confraternidade de 15 membros), foi o único a seguir profissionalmente o ofício paterno, a saber: professor de músico, embora outros irmãos seus fossem músicos amadores, a exemplo de meu tio Celino Porciúncula de Moraes, que permaneceu na terra natal, e ouço dizer que era excelente flautista,além de poeta.

Meu Pai, entretanto, a par de também poeta, era multi-instrumentista musical, regente e compositor. Cultivou e desenvolveu a vocação para o magistério das diversas especialidades da arte de Euterpe, a saber: leitura, solfejo, teoria da composição, execução instrumental, harmonia e por aí vai. Multi-instrumentista, sim, como pré-requisito para o ensino de diversos instrumentos musicais, embora, seu instrumento de eleição fosse o violino.

Quando, na companhia de meu querido amigo Waldimir Costa de Jesus, o popular Wadeco, trabalhei, na função de postalista do antigo Departamento dos Correios e Telégrafos, da seção de “colis postaux”, então sediada no prédio da Praia Grande (onde está hoje a Câmara Municipal), por influência de Wadeco, passei a conversar com Natalino Salgado, funcionário da Fazenda Federal, cuja delegacia em nosso Estado ali igualmente tinha sede.

Nos derradeiros anos da década de 50, quando chegamos a São Luís e aqui nos fixamos na esperança de descansar do “doido lutar por terra alheia” (Humberto de Campos), meu Pai procurou restabelecer os vínculos afetivos com muitos de seus ex-alunos aqui residentes.

Por todo esse tempo e após seguidos anos, porém, não tive a menor ideia de que algum liame sentimental me aproximava de Natalino Salgado, por via do magistério de meu Pai, que desde moço teve muitos alunos, como resultado de seu magistério semiparipatético, iniciado num remoto conglemerado humano constituído para extração e tratamento da borracha, no alto Xingu, e continuado por “Ceca e Meca e Olivais de Santarém”, ou seja – cumprindo uma longa andança que incluiu Belém, São Luís, Cururupu e as paradisíacas praias de seu vasto litoral, mais Carutapera, Vitorino Freire, Santa Inês e São Luís novamente, restando excluídas outras tantas paragens que compuseram o inquietado e constantemente improvisado e quase imprevisível desitinerário (valha o neologismo) de meu Pai, alma andarilha, sonhadora e inquieta.

Nos derradeiros anos da década de 50, quando chegamos a São Luís e aqui nos fixamos na esperança de descansar do “doido lutar por terra alheia” (Humberto de Campos), meu Pai procurou restabelecer os vínculos afetivos com muitos de seus ex-alunos aqui residentes. Entre eles, praticamente a metade da Banda de Música da Polícia Militar, a partir do mestre, tenente Gregório, do contra-mestre, João Carlos Dias Nazareth e de numerosos integrantes das posições mais graduadas daquela Banda, fato que me levou a, feito já soldado raso da corporação por minha conta e risco, examinar concretamente a hipótese de tornar-me sargento-músico, preparando-me para um eventual exame de clerinetista. Mas tal não passou de um projeto gorado.

O flautista Miguel Zaque Pedro incluía-se entre os ex-alunos de meu Pai, o mesmo cabendo dizer quanto ao saudoso desembargador Juvenil Ewerton, exímio violonista e saxofonista. E tantos, tantos outros que me seria impossível enumerar.

Não faz muito tempo que, encontrando nas compras de mercado o velho Natalino Salgado, em companhia de uma filha sua, perguntou-me ele: sabias que fui aluno do teu Pai? à minha resposta negativa, comprometeu-se a, num breve encontro nosso, contar-me poucas e boas de seu velho professor.

Lamentavelmente, porém, esse projetado reencontro jamais ocorreu, por culpa dos desencontros da vida. E assim, deixei de recolher um valioso testemunho presencial acerca do magistério e da figura humana de meu Pai, de quem hoje, aqui, excessivamente falei, reconheço. Reconhecimento, por sinal que também se estende relativamente a mim próprio. Certamente como forma de compensar a discrição com que, neste espaço, falo de mim e de meus familiares. Também, poxa, além de filho de Deus, como qualquer cristão que se preze, não haja a menor dúvida de que tive Pai e Mãe, e guardo carinhosamente a memória deles.