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Academia Maranhense de Letras

Lino Moreira

Cadeira 08


Tomalá e Dakcá

30 de dezembro de 2020

Tomalá e Dacká são personalidades importantíssimos da vida política brasileira. Às vezes eles somem dos meios de comunicação nacionais por meses a fio. Nessas ocasiões, é de dar pena ver alguns políticos com aquele ar de preocupação, tristeza e, até mesmo, revolta, tão característicos das ocasiões de perda de suporte da atividade magna do nosso país – o patrimonialismo mais rasteiro assentado sobre troca de favores com o uso de bens públicos; entre estes, cargos de direção da estrutura da administração federal, inclusive de ministérios. Mas o ambiente de consternação não dura muito tempo, pois logo os dois personagens reaparecem dispostos a oferecer bons nacos de alegria nas salas e corredores do Parlamento, a parlamentares do mais baixo clero – nunca se sabe quando um deles vai se tornar presidente da República – bem como aos de status mais elevado na hierarquia partidária.

Por qual razão falo daqueles dois? Ora, quem não se lembra do destaque (negativo, é verdade, mas destaque) alcançado por eles, no início da era Bolsonaro, dois anos atrás. As coisas, a partir de então, seriam datadas de aB e dB, antes de Bolsonaro e depois de Bolsonaro. Fora Tomalá e comparsa. Antes, a desordem; depois a ordem. A nova política irrompia na arena política, com desejos de nunca mais dela se afastar. A velha iria desaparecer.

O governo, então recém inaugurado, começou com aquele energia reformadora e apenas retórica tão comum no período imediatamente posterior a eleições de presidentes e governadores do Brasil e de muitos dirigentes de numerosos países por todo o mundo. Pelo andar da carruagem de então, Tomalá e Dacká desapareceriam em não mais de duas semanas, liquidados pelos novos tempos e por auroras de prosperidade e felicidade. Mas não para comunistas e seus semelhantes. Nunca mais barganhas por cargos no governo, nunca mais a Rede Globo, nunca mais o Congresso e o Supremo Tribunal Federal com ares de mandões. Seria a vez da família. A família Bolsonaro, claro. O zero, zero; o zero um; o zero, dois; o zero três; e o mais recente membro, o mais novo de todos, Renan, o zero quatro.

Mas nada foi assim. Dada a mania dos políticos de fazer sabem o quê? Política, isso mesmo, política, a coisa começou a desandar. Não é que Bolsonaro teria de negociar com o Congresso, a fim de aprovar seus programas e projetos? Ousadia sem limite. Queriam obrigá-lo a tal sujeira, algo fora de sua natureza de homem bom. Ele, porém, estava certo de, embora desrespeitando a hierarquia das leis, ser capaz de, com meia dúzia de decretos, fazer uma revolução cultural no Brasil, como Mao quis fazer na China e deu com os burros n’água. Depois percebeu que não iria a lugar nenhum por esse caminho. Daí surgiu a ideia genial: chamaria Tomalá e Dacká de volta. E chamou. Sem a execrada barganha, percebeu a ameaça real de impeachment de seu mandato. Danem-se, pois, princípios. Mais valia salvar o poder declinante ainda em suas mãos. Passou a negociar com o amaldiçoado Congresso.

Agora, nas eleições à presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, ele perdeu a vergonha sem nenhuma vergonha. Seu candidato ao comando da Câmara, deputado Lira, é réu por corrupção passiva, acusado de receber R$ 106 mil em propina em 2012. O dinheiro teria sido escondido nas roupas de assessor dele, por determinação do próprio parlamentar, em edificante manobra para esconder o crime.

Que diferença entre discurso e gesto!

Lino Raposo Moreira

PhD, economista, membro da Academia Maranhense de Letras