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Academia Maranhense de Letras

Jomar Moraes

Cadeira 10


Tertúlias lítero-culturais

11 de agosto de 2010

Jornal: O Estado do Maranhão
11 de agosto de 2010 - quarta-feira
Por: Jomar Moraes

Aradical modificação (que nem sempre significou evolução ou melhoria) dos costumes, varreu do nosso cotidiano as tão comuns e aconchegantes tertúlias que ocorriam no passado em diversas instituições e também em espaços familiares. No caso maranhense, tais encontros aconteciam tanto em São Luís quanto nos mais desenvolvidos núcleos habitacionais do interior, sendo particularmente famosos os saraus culturais de Caxias, Alcântara e Carolina, onde as pessoas se reuniam em determinados espaços para o cumprimento de uma programação em que entravam música vocal e instrumental, leituras e comentários de natureza cultural e, geralmente após servida a ceia de costume, havia a indefectível declamação de poesias, momento quase sempre pontuado por ditos de espírito, “boutades” ou “trouvailles”, como, à época, era de bom tom dizer galicisticamente.

Hoje, nestes nossos tempos da pressa, da velocidade, do descartável e do estresse rebarbativamente estressante, já não se fazem tertúlias como antigamente. Nem seria o caso de fazê-las, tal e qual foram no passado, porque os tempos são marcadamente outros. E hoje não mais haveria lugar para as declamações com voz tremelicante e marcadas por gesticulação desbordantemente teatral.

Ainda bem que nestes nossos tempos alígeros, pressurosos, ainda tenhamos potencialidades para dedicar boa parte de nossas atenções, não a tertúlias talqualmente realizadas até passado a bem dizer, recente, mas a reuniões culturais realizadas de conformidade com o que atualmente se prescreve para eventos da espécie.

Atentos à existência desses nichos particularmente apropriados ao fim que lhes está sendo conferido, suplementarmente, dois órgãos de nossa cidade, a Escola Superior da Magistratura do Estado do Maranhão, vinculada ao Tribunal de Justiça, e o Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, integrante da Secretaria de Estado da Cultura, que instituíram programações específicas.

Tais órgão são dirigidos, não por acaso, pelos escritores e membros da Academia Maranhense de Letras, desembargador Lourival Serejo e professora Ceres Costa Fernandes, respectivamente.

O diferencial que marca a presente atuação dos órgãos mencionados tem a ver com o plus que por eles vem sendo exercido, pois indo tais órgãos além de suas atividades rotineiras e funções que pelo comum exercem, têm oferecido à nossa comunidade, serviços que elastecem e diversificam sua pauta de atuação ordinária.

Em horários que se acrescem aos seus expedientes rotineiros, tanto a Escola da Magistratura quanto o Centro de Criatividade puseram em prática programações culturais muito relevantes e que, em razão
dos cronogramas e dos espaços adotados, ao contrário de entre si concorrerem, complementamse mutuamente, a contar dos dirigentes desses órgãos, pois a professora Ceres atuou como palestrante do Esmam Cultural, e o desembargador Lourival funcionou como debatedor do Café Literário do Centro de Criatividade.

Se não estou enganado, o Projeto Esmam Cultural já teve duas edições, o mesmo cabendo dizer relativamente ao Café Literário do Centro de Criatividade. Ambos os eventos, segundo me informam, terão periodicidade mensal e, sempre que as oportunidades se ofereçam, levarão na devida conta as datas comemorativas importantes abarcadas pelo período, a exemplo do que já aconteceu.

A experiência que naturalmente haverá de ser capitalizada pelas repetidas realizações dos eventos, haverá de resultar no seu progressivo aperfeiçoamento.

Obstáculos iniciais não haverão de ser motivo de desânimo para os promotores dessas bem-vindas tertúlias culturais, uma iniciativa que há muito faltava na rarefeita vida cultural são-luisense, cada vez mais prejudicada por um conjunto de fatores que parecem ter o efeito de progressivo esgarçamento das relações interpessoais vigentes no círculo dos oficiais do mesmo ofício.

Do primeiro Café Literário participaram, como autores convidados, os escritores José Neres Costa e José Ewerton Neto, que discorreram sobre seus processos e problemas de criação, estabelecendo interessante diálogo com o publico interessado.

Já as edições do projeto Esmam Cultural tiveram formato composto por maior quantidade de itens e talvez esteja a reclamar urgente reformatação, com vistas a fazê-lo mais compacto e, conseqüentemente, mais proveitoso e assimilável pelo público.

Mas o importante é a existência dessas duas frutuosas iniciativas que estão funcionando como oportunidades de encontros para boas audições, troca de experiências e exercício intelectual que caracterizam a vida inteligente em sociedade.