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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


TEMPOS DE ENCASULAMENTO

9 de julho de 2020

Nos EUA da década de 1990, o termo cocooning, encasulamento (de cocoon, casulo), passou a denominar a tendência de casais, ou mesmo de famílias inteiras, viverem encerrados no conforto de suas casas, com cada vez menos incursões ao mundo exterior. A tendência ganhou o mundo, fortaleceu-se com o advento da Internet, o uso múltiplo do celular, o trabalho em casa, as compras on line e todo o resto que se seguiu. Dirão que falo da classe alta, dos ricos, sim, quanto maior o poder aquisitivo, maior o conforto e não se pode comparar uma casa ampla com espaços privativos com um casebre onde pessoas se amontoam. Mas mesmo nas casas mais humildes, algo mudou, não há casa sem TV e também não há pessoas sem celular, instrumento capaz de segurar um jovem dentro de casa o dia inteiro. A maior preocupação dos pais nos tempos pré-internet era a de tirar os filhos da rua e, depois, o de arrancar os filhos de casa e do celular. Nos meses COVID, as pessoas (as conscientes) confinadas em casa, principalmente as mais velhas, lamentam o que poderiam estar aproveitando, restaurantes, cinemas, teatros, shows, confraternizações, etc. O que é proibido cresce no nosso desejo. A verdade é que já vínhamos nos tornando cocooners aos poucos, deixando de cumprir obrigações sociais (olha o nome: obrigações), faltar a shows, No próximo eu vou, teatros idem, Aquele filme tão bom passando, Há outro na Netflix, que também é bom. Passamos a viver entre grades, com medo da volta, na entrada da casa, com bandidos a nos esperar. No trânsito enlouquecedor, dirigir, de prazeroso, tornou-se tormento. Em casa, comentamos, Este ano não fomos ver dançar boi no São João, nem comer as comidinhas gostosas dos arraiais. De repente, lembramos que no ano passado também não curtimos quase nada. A neta paulista queria ir ao arraial do IPEM que diziam o melhor; fomos duas vezes, a primeira de carro próprio, nenhum estacionamento; voltamos. Na segunda, pegamos um táxi, e na porta do clube a fila de ingresso serpenteava, longe. Deixamos a neta com uma colega e fomos para casa. Dois dias depois, levamos uma amiga carioca ao arraial do CEPRAMA. Estacionamento lotado, ficamos horas à espreita de uma preciosa vaga. Lá dentro, nenhum lugar para sentar, sequer ficar de pé, a aglomeração era tanta que não se divisava nada. O boi dançava quase ao rés-do-chão. Víamos muito bem o topo das penas, ah não era boi, eram índios, porque a hierarquia é assim: iniciantes, dança portuguesa, cacuriá, tambor de crioula, bois menores e lá pras tantas, beirando uma hora da manhã, os grandes bois, Maioba, Maracanã e os bois de orquestra com as índias bonitas e garotões sarados. A amiga carioca subiu em uma mureta e lá ficou, equilibrando-se. Noite adiantada, fomos embora, sem esperar os figurões, pés doendo e estômago vazio, que garçom só apanhado a laço e refrigerante e pratinho típico era pra quem sofria caudalosa fila. Muitos creem que após a pandemia as pessoas terão aprendido a valorizar o outro, a presença física reforçando os laços da amizade, haverá mais generosidade, menos egoísmo. Sou mais pessimista. Aberta a porteira, muitos correram para continuar a fazer o que sempre fizeram, atropelando a todos, em prol de si mesmos; outros descobriram o charme da vida interior, a facilidade de fazer coisas à distância, a simplificação da vida, a delícia de conviver com os filhos, a leitura, a alquimia da cozinha e a interação com as plantas. Acho que houve um acentuado aumento na tribo dos cocooners.