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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


TEMPOS DE ATA E PEQUENOS PRESENTES

26 de abril de 2019

Com as chuvas intensificadas, talvez em abril, chegam as atas. Não cuido do tempo de calendário, sei, de ouvir dizer, que setembro pode ser tempo de caju e novembro o das mangas, ambos decorrentes de chuvisqueiros peneirados. Mas na minha antiga casa, as árvores eram meio rebeldes e davam fruta quando bem queriam. Mas davam. Eram mangas, pitangas e, durante certa época, juçara. Essa, a gente nem aproveitava, os bem-te-vis engoliam os caroços maduros e faziam cocô roxo nos muros brancos, criando estranhos e lúgubres painéis até que, um dia, as juçareiras, frutas de outubro e palmeiras de baixios alagados, cansadas de estar teimando em terreno pedregoso, feneceram. Em compensação, os coqueiros, como os de Ari Barroso, davam coco o ano todo.
Tempo de ata, fruta de conde, pinha, era sempre tempo de Tio Janu. Surgiam as primeiras atas, e lá vinha ele com um pacotinho nas mãos. Sempre gostei de ata e ele nunca esqueceu disso. Abro-as ao meio, como os baguinhos de colherinha, raspando o néctar da casca. Celestial. Vai daí, não consigo pegar em uma ata, sem lembrar do meu tio.
Figura ímpar, conhecia a arte de presentear como ninguém. Descobria os gostos e preferências das pessoas e as surpreendia com pequenos mimos, sem dia certo, nem ocasião, Vi por aí e me lembrei de ti… O dom inato de agradar de Tio Janu fazia-o autor de ações rocambolescas para que certos presentes não se assemelhassem a esmolas. À casa de uma amiga cheia de filhos que ele sabia passar dificuldades, chegava sempre com o disfarce de um desejo guloso, Comadre, me deu vontade de comer esta galinha gorda com pirão, daquele jeito que só você sabe fazer, mais tarde passo aqui pra almoçar. E assim era, com os bagrinhos para a caldeirada, com a pescada para rechear no forno, com o belo lombo de porco. E sentava-se à mesa com a família, sem precisar humilhar ninguém. Deve ser dito que ele tinha cozinheira antiga e boa.
Não tão perto de sua casa havia uma feira; morando sozinho e consumindo pouco, ia às compras em táxi de um amigo, que por acaso lhe cobrava mais caro – Ele tem uma filha na universidade, coitado. Para aproveitar a viagem, trazia a mala do carro cheia. O excesso de frutas e legumes era repartido porque a geladeira “não tinha espaço suficiente”.
Tive também um amigo, do tempo de colégio, presenteador, que trazia aos colegas do nosso grupo, aleatoriamente, um embrulhinho para um, um para o outro, eu perguntava, Qual o motivo de eu ganhar isto hoje? Ele respondia, candidamente, Ah, por nada, só assim…
Vem chegando o dia das mães, dia da família ao redor da genitora, muito festejo e carinho, e também dia de filho que passa o ano sem sequer visitar a mãe levar um presente de obrigação. Vão cair em cima de mim, Ela está criticando o dia da sacrossanta mãezinha. Não são todos, uns amam mesmo as mãezinhas, mas presente com dia marcado é constrangedor. O dia das mães não serão os 365 do ano?
O Natal leva a palma do consumismo desenfreado e dos presentes sem alma e é seguido do dia das mães, Páscoa, dia dos pais, namorados etc. Desses, acho que só no dia dos namorados os mimos são mais sinceros. Deus me perdoe se blasfemo.
E vivam os presentes à Tio Janu, simplesinhos, dados de coração, aqueles de dia incerto, os “Vi por aí e me lembrei de ti” ou “Só assim…”
ceresfernandes@superig.com.br