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Academia Maranhense de Letras

Joaquim Itapary

Cadeira 04


Só papo e rabo

6 de agosto de 2015

Há uma expressão no espanhol do medievo que diz bem do sentimento de quem, passando algum tempo fora, hoje retorna a São Luís: estamos a marchar “com cajas destempladas”. Explico: cajas eram certo modelo de tambor, de ordinário usadas “templadas”; quer dizer, afinadas, com os couros tensos, esticados, tarraxas apertadas. Salvo em atos envolvidos em tristeza, como os da imposição de castigos ou em cerimônias fúnebres. Na Espanha de hoje, mormente na Andaluzia, sobrevive parte dessa antiga tradição medieval quando, na Semana Santa, a modo de evocação de dor pela morte de Cristo, se “destemplam a las cajas ” para que produzam um som cavo e roufenho.

Pois é assim que o maranhense marcha, há quase oito meses, sob administrações atordoadas diante de elementares problemas de gestão pública, manifestamente incompetentes até para a administração de uma pobre bodega de subúrbio, asnaticamente confusas e inoperantes, entregues à prática espetacular e ostensiva da mais soberba parvoíce, ao som roufenho de caixas desatarraxadas, como se cumprisse longas e fúnebres cerimônias próprias de acabrunhador período quaresmal, na expiação de dolorosos castigos pelo inadvertido uso do voto.

A alegação de crise financeira não explica e não justifica a pasmaceira em que nos encontramos. O que falta de fato é um plano de governo tecnicamente bem concebido.

A alegação de crise financeira não explica e não justifica a pasmaceira em que nos encontramos. O que falta de fato é um plano de governo tecnicamente bem concebido. Ninguém no mundo moderno pode administrar nada sem contar com um programa de metas e objetivos claramente definidos e conhecidos de toda a sociedade, na consecução das quais se fará o uso de recursos eternamente escassos de modo criterioso, seletivo, criativo e produtivo. Em verdade, o Maranhão já não anda, se arrasta! Em alguns setores da economia e em certos aspectos da vida social, empreende marcha-a-ré. A construção civil, maior empregadora de mão de obra semiqualificada no Estado, em situação pré-falimentar, lança ao desemprego milhares de trabalhadores. A construção pesada desmobiliza equipamentos, despede seus operadores e entra em hibernação, sem perspectivas de trabalho, constrangida pela inexistência de planejamento de novas obras públicas.

São Luís, como espelho a refletir a situação de marasmo em que se acha o Maranhão inteiro, é, hoje, o retrato do desalento, da involução econômica, da insegurança pública e do agravamento dos males causados por um crescimento físico absurdamente caótico, gerador de deseconomias urbanas que já oneram e comprometem, de modo irremediável, o futuro da cidade. Os serviços entram em colapso. A renda das famílias murcha, as lojas e mercados ficam às moscas e os títulos vencem sem resgate. Só cresce a miséria, só aumenta o desencanto, só prospera a indignação.

As forças que pregavam mudanças sociais, econômicas, administrativas e políticas precisaram de poucos meses para comprovar a sua capacidade de mudar tudo para pior. A gestação de um ser humano perfeito ocorre em nove meses, desde a fecundação ao parto. Daqui a mais dois meses teremos o primeiro parto dos empavonados mudancistas, seja sob bênçãos de pactos ou ao som de traques. Posso até estar errado, mas esse feto hoje em gestação virá à treva – e não à luz – tal qual uma criatura anormal, um prepotente e raivoso monstrengo imbecil: cachola diminuta, sem braços, sem pernas. Só papo e rabo!

jitapary@uol.com.br