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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Será admirável o mundo novo?

18 de abril de 2020

Inspirado no título da obra Admirável Mundo Novo que Aldous Huxley escreveu em 1931, inicio esta crônica pensando sobre aquela sociedade em que dois grupos disputam espaço. Pergunto: passadas duas décadas do século XXI, qual mundo emergirá deste cenário de pandemia em que vivemos? Quais interesses prevalecerão da disputa por espaço e protagonismo? Em que se sustentarão nossos investimentos, atenção e esforços?

Esta semana, em lúcido artigo publicado no site Migalhas, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, destacou que, quando tudo passar, deveremos construir um “novo normal”. Ele reconhece o que parece bastante claro para todos: teremos um tempo difícil na economia mundial e o que era apenas o início da mínima organização de nossa economia, para um ciclo com algum investimento e crescimento, torna-se recessão. No entanto, adverte: a situação não deve ser vista apenas pelo viés negativo.

Faço coro ao ministro do STF, ao entender que nossos recursos – diminuídos – precisarão ser investidos onde for, de fato, necessário. Porque investimos, cronicamente, muito pouco em inovação e tecnologia. Quando produzimos algo, o fizemos heroicamente, devido à inacreditável burocracia e aos limitados recursos, aliados a um planejamento que não prioriza o essencial, o inadiável. Destaco que, nas últimas semanas, de forma heroica, a Fiocruz anunciou que produzirá um milhão de testes.

Mas, para os desafios deste novo mundo que se nos aguarda, precisaremos não só de pessoas à altura, mas também de muito mais recursos para a educação, em todos os níveis, para ampliarmos a produção em ciência de ponta. No New Egland Journal of Medicine, o professor Harvey Fineberg, ex-reitor da Escola de Saúde Pública de Harvard e presidente da ANM dos Estados Unidos, estabelece seis passos para a derrota da Covid-19. Entre esses, a valorização da ciência.

Todos os países que deram saltos tecnológicos investiram, durante décadas, em educação, pesquisa e extensão. Foram inteligentes em fazer suas escolhas, ou como ativo de recursos naturais, ou no que o mundo acadêmico tinha como maior potencial competitivo. Eis um exemplo recente: poucos anos depois da epidemia de SARS, em 2002, um laboratório americano, em Houston, esteve com a vacina praticamente finalizada. Mas a epidemia havia acabado e o Instituto Nacional de Saúde americano deixou de financiar a pesquisa. Detalhe: o Coronavírus, causador da SARS, é primo da Covid-19.

Com isso, o mundo perdeu muita informação e técnica, o que diminuiria, enormemente, o tempo para uma nova vacina. Aprendemos agora ou no curso dos próximos eventos? Seremos sábios o bastante para percebermos que a Pandemia é um chamado à reflexão? Esta situação, que a todos nós nivela e irmana, atualiza A peste de Albert Camus, Nobel de Literatura, muito citada nas últimas semanas. Camus descreve um cenário que muito se assemelha ao que vivemos atualmente e que muito pode nos ensinar, se tivermos ouvidos para ouvir. O cenário é muito familiar, sem “destinos individuais”, mas com “uma história coletiva” de peste, separação, exílio, medo e revolta.

Vamos às lições que vislumbro para a educação: precisamos de um grande debate sobre nossa fragilidade educacional, conforme as evidências e os dados existentes, visto que mais da metade de nossa população tem baixa qualificação. Isso a expõe à situação de vulnerabilidade e risco. Como disse o pensador Yuval Noah Harari, não estamos como na época da Peste Negra, na Idade Média, quando sequer se sabia o que estava acontecendo. Hoje temos informações científicas, graças a Deus.

Porém, precisamos ser sábios sobre onde investir para criar soluções e bem escolher. Nessas condições, seremos um mundo melhor, menos vulnerável e mais solidário, com homens e mulheres comprometidos com o bem e com a vida, acima dos interesses políticos e econômicos. Apesar das perplexidades, poderemos compartilhar as lições da Pandemia. Será um mundo novo. Admirável, se nele estivermos renascidos para o enfrentamento, em conjunto, dos próximos desafios, com pés firmes e passos convergentes.