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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


SANTA

14 de junho de 2020

Pessoas há que o nome se lhes cai como uma segunda pele. Este era o caso de Santa. Alta, quase dois metros, fornida, braços roliços e muito fortes, bunda alta e sacudida, porte altivo de uma rainha etíope e enorme sorriso de dentes brancos no rosto negro e luzidio. O perfil de um lutador de sumô. E o nome, Santa? Pra mim, lhe assentava, E como a história é minha, ficamos assim. Cozinhava – as cozinheiras são rainhas –, em alta e vasta cozinha antiga, daquelas de fogão a lenha e fogareiros a carvão, onde reinava só e ninguém se atrevia a sobrepor-lhe o mando, nem minha avó, temida soberana da enorme casa assobradada cheia de filhos, netos e aderentes, que a percorria usando, à cintura, um grosso molho de chaves que tilintava à sua aproximação. O belo sorriso de Santa não tinha a ver com o seu temperamento, altiva, enxotava todos de sua cozinha, como se enxota galinha, a comida estaria pronta na hora, mas nada de interrupções. Criança não teme cara zangada, inda mais quando uma carne assada em panela de ferro deixa aquele molho grosso e lasquinhas de carne pra torrar a farofa e a farofa quentinha cheira longe, Menina, sai daqui, chamo tua avó, Chama, mas antes me dá um cadinho de farofa, Cozinha não é lugar de criança, hum. E eu ganhava meu pratinho, com rodelas de banana. Aposentado, meu avô recebeu o convite para trabalhar em importante escritório de advocacia em Fortaleza, a família mudou-se, e Santa ficou, foi para minha casa. Se não temia minha avó, haveria de temer a minha mãe? Não que minha mãe se importasse com a interdição da cozinha, acho que até gostou. Que bom, Santa outra vez, novas intromissões, as eternas brigas. Eu, na fase de experimentos, comidinha, doces e bolos, sujando e desarrumando tudo, ela a me tocar pra fora, eu insistindo. Em meio a ralhos e queixas, descobri que gostava de mim, no seu estranho modo de gostar. Comprava-se a comida diariamente, na porta, no mercado, na feira, peixes carnes, galinhas vivas, verduras, tudo era fresco, do dia. A cozinha era o epicentro da casa. Cozinhava-se de manhã e de tarde. Santa cozinhava e fazia compras no chamado Galpão. Os presentes de amigos eram diferenciados, improváveis hoje, peixes, galinhas vivas, até cabritos. Nada a estranhar, todas as casas tinham quintais. Perto do Natal, chegou um gordo peru com um fitilho vermelho na perna direita. Ceia garantida. Foi posto no quintal, mas não demorou muito lá, um ladrão, driblando o muro alto e o cachorro, levou a estrela da ceia. Era nos bons tempos dos ladrões de galinha, nesse caso, peru. Dias depois, Santa nos chega da feira puxando um peru por uma corda. Era o cujo roubado. Espanto, como foi isso, Santa? E ela, lacônica como era seu jeitão, Fui comprar galinha e vi o peru com o fitilho vermelho, falei pro homem que era do doutor. E ele? Não quis dar. Mas, como você conseguiu que ele lhe devolvesse o peru? Ora, joguei o homem no chão e sentei em cima dele, até ele concordar. Em menina, vivia enfurnada nas cozinhas, provando as comidas, querendo fábulas – quem conta história de dia cria rabo! – do coelho e a onça, causos de assombração, currupira, lobisomem, à noite, cama dos meus pais. Só mais uma, pedia. Acho que infernizei muitas cozinheiras, elas entraram na minha formação literária e permanecem na minha memória. Agora, neste deserto de pessoas, sinto falta destas verdadeiras rainhas do lar e as homenageio na figura ímpar e inesquecível de Santa. cerescfernandes@gmail.com