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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Resistência à vacina: (velho) novo problema

16 de fevereiro de 2019

Há dois anos o Brasil passou por um dos maiores surtos de febre amarela em décadas. Uma doença praticamente erradicada repentinamente provocou uma emergência com muita desinformação e reações que não ajudaram. Presenciou-se uma busca frenética pela vacinação. Cenas de invasão de postos de saúde foram retratadas nos jornais. Não havia vacinas suficientes nos estados de maior foco da epidemia.

Repentinamente, quando foram normalizados os estoques e a vacina, o quadro exibido em diversos canais da mídia foi o de postos de saúde abertos e sem pessoas para vacinar ou em níveis que não atendiam às metas estabelecidas pelas secretarias de saúde. A razão dessa mudança de cenário foi a divulgação de quatro mortes associadas a reações à vacina de mais de quatrocentas mil pessoas imunizadas. É evidente que nenhuma morte nestas circunstâncias é o esperado, mas fatalidades, alheias à própria vacina, podem ocorrer. A desinformação acrescentou um dado a mais ao quadro em que as pessoas adultas não têm hábito de vacinação, mesmo numa epidemia.

Em 2018, em virtude da migração em massa de venezuelanos, o sarampo entrou no radar das vigilâncias, a princípio nos estados do Norte e, depois, de vários outros estados da federação. Mais de dez mil casos foram registrados com doze mortes. Novas campanhas foram iniciadas e, novamente, a taxa de vacinação ficou abaixo das metas.

O Brasil tem um dos melhores programas de imunização pública do mundo. O SUS oferta vacinas para adultos no calendário regular gratuitamente. As vacinas Hepatite B, dT (difteria e tétano), Febre Amarela e Tríplice Viral (sarampo, caxumba e rubéola). A rede privada tem uma variedade maior, mas, ainda assim poucas pessoas procuram este serviço que, podemos dizer, é uma forma eficaz de cuidado da saúde.

O século XX assistiu a vários fenômenos nos perfis das doenças com os quais os sistemas de saúde pública tiveram que lidar: a cronificação de muitos males, a emergência de outros, mas, acima de tudo, constatou-se que estratégias como a vacinação contribuiu para o aumento da longevidade e diminuição de quadros endêmicos e infecciosos muito comuns, que dizimavam grande parte da população, especialmente a de países pobres. A vacinação é, sem dúvida, uma estratégia de prevenção mais em conta, de fácil administração e grande alcance.

Alguns estudos têm mostrado a razão da baixa taxa de vacinação de adultos. A população em geral acredita que vacinação é apenas para crianças. Muita gente é suscetível às teorias conspiratórias – as chamadas Fake News –, ainda mais com a fácil difusão da informação pelas redes sociais. Um exemplo: acreditar que as vacinas podem causar doenças ou reações potencialmente fatais. Ora, toda vacina passa por um extenso processo de pesquisa – algumas podem chegar a 15 anos de estudos clínicos –, avaliação e, por fim, criteriosa forma de industrialização.

Muitos adultos não sabem que há um calendário para imunização próprio para esse estágio da vida e alguns acreditam que, como grande parte das doenças estão controladas, não há necessidade de vacinar; e ainda há os que criam e fomentam grupos antivacina que fazem verdadeiras campanhas – todas elas fundamentadas em fatos questionáveis e sem comprovação científica.

Infelizmente lidamos, pelas razões expostas, com baixa taxa de imunização. O caso do vírus da influenza é emblemático, pois, ainda que receba grande cobertura da imprensa, a taxa de imunização é de 86%, quando deveria estar entre 95% e 100%. Esse cenário me faz lembrar o filósofo francês Gilles Deleuze, quando afirmou que o fundamento do tempo é a memória. Que aqueles que chegaram até aqui não esqueçam nunca que foi devido ao trabalho árduo e denodado de pesquisadores, cientistas e profissionais de saúde que recebemos um mundo mais livre de doenças e que nos oferece a oportunidade de vivermos por mais tempo.

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA