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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


QUITANDAS

14 de julho de 2020

No meu universo infantil, em um tempo mais ou menos distante, habitava uma quitanda. Era numa rua à beira do Rio Itapecuru, na cidade de Rosário, perto de casa. Retenho dela alguns flashes: chão batido, potes de vidro com balas leitosas de listras coloridas e chupetas de açúcar; rolos de negro fumo de corda no chão, qual cobra enrodilhada para o bote, e um amontoamento de mercadorias ordinárias, de onde poderia surgir o encantamento de uma máscara de papelão pintada à mão, um reco-reco, uma boneca de tiras de buriti ou até mesmo um passarinho de madeira que batia as asas. Compondo outro plano – este se move – em tons de sépia, estão os caboclos barqueiros, que ali iam comprar fumo e beber cachaça. De um moreno encardido, com camisas de algodão cru, calças arregaçadas, pés descalços de dedos escarrapachados, pareciam todos iguais. Mas, não. Uma coisa os diferenciava: a arte das cusparadas no mascar o fumo de corda. Havia o estilo próprio. Uns cuspiam, por entre a falha dos dentes, um jato fino e comprido; outros menos criativos cuspiam de banda, curtinho. Mas havia um cuja imagem se destaca e se superpõe à dos outros – como uma colagem –, do qual o cuspo partia fino para se abrir em flor antes de alcançar o solo de areia fora da quitanda. Coisa de raro talento. Ligado fortemente à imagem desta quitanda está a do meu guardião, o querido Tio Janu, sempre no encalço da sobrinha fujona – ali decididamente não era lugar para meninas – portador de recados ameaçadores de minha mãe, para os quais, é forçoso confessar, eu me lixava. Pulo para São Luís, onde guardo outra quitanda emblemática: a de seu Guilherme, no Largo de Santiago. Uma quitanda típica de bairro. Pequena, entulhada de mercadorias que ocupavam as poucas prateleiras, o chão e o teto, de onde pendiam lamparinas, bonecas de plástico, canecas, abanos, espanadores e papagaios. Ali, podia-se comprar tudo a retalho: uma colher de café, uma cabeça de alho ou uma quarta de feijão. O balcão de madeira rústica, enegrecido do uso e pelo corte do sabão em barra, ostentava a famosa balança de dois pratos e tentadores vidros de doces com as deliciosas chupetas açucaradas, mariolas, chocolates Bis, balas de figurinhas… Ma-ra-vi-lha! Artistas sempre os há. E na quitanda citadina, a manifestação artística era do próprio quitandeiro. Eu admirava a espantosa rapidez de seu Guilherme no empacotamento das mercadorias. Com um papel cinza grosso, apenas enrolando as bordas com os dedos, sem o uso de cordões ou fitas colantes, ele fazia pacotes perfeitos. Porém, a sua virtuosidade sublime era o empacotamento da manteiga. Se alguém chegava pedindo a dita cuja, com o respeito devido à arte, eu segurava a respiração para acompanhar a cena que viria a seguir. Era assim: chegava o emissário da dona de casa e pedia “uma quarta de manteiga”; o quitandeiro tirava de uma lata enorme, com uma colher de pau daquelas de mexer feijoada de batalhão, porções de manteiga Gaivota ou Flor da Nata, pousando-as suavemente no prato da balança coberto por um papel “gelatinado” quadrado; depois pegava as pontas do papel, juntava, dobrava, dava um rasgo no meio da dobra, outra dobra, e zás, estava feito um saquinho que o comprador levava seguro pelas pontas unidas. Eu tinha vontade de aplaudir. Quem disse que quitanda não é cultura? Por fim, digo que a quitanda era acima de tudo um espaço democrático. Acolhia os bem aquinhoados nas compras emergenciais e também os pobres de modo que não se envergonhassem de comprar uma colher de café ou dois dedos de óleo. Ainda hoje, elas sobrevivem, nas pontas de rua dos subúrbios, servindo de refúgio aos que, compram aos bocadinhos apenas para a necessidade da hora. Lá, ainda se vende a cachacinha ou o fumo de mascar – este só para os mais velhos, que não têm para quem deixar a sublime arte do cuspe ornamental.. A arte do empacotamento, com o advento da oitava praga do Egito, o saco plástico, perdeu-se. Quem souber de alguma quitanda onde se execute o empacotamento da manteiga a retalho, me avise. Prometo assisti-lo com unção. Mas, se ainda houver algum devoto desse ofício, duvido muito que ele repita a performance divinal de seu Guilherme. Ah, isso duvido!