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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Primeiro de dezembro, um alerta necessário

30 de novembro de 2019

O mês de dezembro chegou, e com ele as festividades de final de ano que ocupam mentes e corações em alegres confraternizações, ceias de Natal, trocas de presentes e votos de paz no novo ano que se avizinha.

Mas o dia primeiro de dezembro é também um marco no calendário da saúde. Cinco anos após a descoberta do vírus da Aids – quando se contabilizavam milhares de pessoas contaminadas e mortos – no dia 27 de outubro de 1988, a Organização Mundial da Saúde instituiu o primeiro de dezembro, como dia mundial de luta contra a Aids.

Havia, naquele momento, uma emergência mundial em relação à doença que se espalhava em grande velocidade e que, também, muito rapidamente mudava seu perfil epidemiológico. Além disso, urgia achar alguma forma de enfrentá-la, pois a maioria das vítimas eram pessoas jovens, portanto em pleno período produtivo. Sabe-se que alguns países africanos atingiram a marca de 20% da população jovem adulta contaminada, afetando drasticamente a força de trabalho e causando grave comprometimento econômico.

O vírus foi isolado, em maio de 1983, por Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, na França, seguido quase imediatamente por Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos. Isolar o vírus foi apenas o primeiro passo para descrever uma doença mortal sobre a qual nada se sabia, além das inúmeras doenças oportunistas que se seguiam, após a destruição do sistema imunológico das pessoas infectadas. Desde então, muitos avanços espetaculares ocorreram com uma gama de remédios que atacam o vírus em várias fases da infecção, além de se ter desenvolvido técnicas para, por exemplo, permitir que uma mulher infectada tenha um filho sem a contaminação com o vírus.

O dia de luta contra a Aids ainda tem grande importância, pois, apesar do grande avanço no tratamento, o que tornou a doença crônica, a diminuição do ímpeto com a informação tem recrudescido em todo mundo – incluído o Brasil – o que favorece o aumento de pessoas contaminadas. Nosso país criou um sistema de assistência que se inicia com o diagnóstico até o processo de fornecimento de medicação, internação e informação, prática que foi considerada um modelo no mundo.

Ainda temos um dos melhores serviços de cuidados, inclusive nosso índice de pessoas contaminadas em tratamento com vírus indetectável chega a 92%, segundo o Ministério da Saúde. Dois por cento a mais que o alvo estabelecido pela OMS, para 2020.

Acontece, porém, que várias pesquisas e reportagens têm identificado uma diminuição nas campanhas brasileiras, além de vários comportamentos sexuais de risco, alguns deliberados, acreditando nas chamadas profilaxias de pré-exposição (PrEP) e pós-exposição (PEP).

Acredito que devemos repensar nesta data estas novas condições que se apresentam, que têm componentes de comportamento social e investir em novas estratégias que não diminuam a gravidade da exposição ao vírus que ainda não tem cura e pode, sim, matar.

Muitas mentes geniais já se despediram deste plano terreno por conta dessa doença insidiosa e cruel. Em terras brasileiras, os cantores Cazuza e Renato Russo transformaram em melodia os dias de tristeza e desalento que atravessaram por conta das consequências da Aids. Em Via Láctea, o líder da banda Legião Urbana sintetiza: “Eu nem sei porque me sinto assim/ Vem de repente um anjo triste perto de mim/ E essa febre que não passa/ E meu sorriso sem graça…”

Que tenhamos a esperança de que, num futuro bem próximo, a dor do poeta, retratada nos versos dessa canção, venha a ser apenas um registro musical e não uma realidade ainda vivida por milhares de pessoas ao redor do planeta.

Natalino Salgado Filho

Reitor da UFMA, médico, doutor em Nefrologia, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA