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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Prática religiosa e bem estar

25 de agosto de 2018

O jornal US Today publicou em 2016 os resultados da pesquisa do dr. Tyler J. VanderWeele, professor de epidemiologia da Universidade de Harvard, realizada com o Johm Siniff, especialista em comunicações, publicada na maior revista de Psiquiatria dos USA (JAMA Psychatry) que a frequência regular de serviços religiosos estava associada a uma boa saúde mental. Esta frequência foi associada também a menores taxas de suicídio, especialmente entre as mulheres.

VanderWeele afirma que saúde e religião estão muito ligadas. Inclusive, pessoas assíduas aos serviços religiosos têm maior longevidade. Hábitos mais saudáveis de vida estão relacionados aos praticantes de uma religião, como não fumar e não ter outros vícios.

Eis uma questão que ainda rende polêmicas acaloradas, pois, durante muito tempo, criou-se uma cunha entre a prática de uma religião, sua visão de mundo e até mesmo suas reivindicações morais como incompatíveis com a ciência.

Desde meados do século XIX, a religião foi atacada como algo antiquado, ultrapassado e que não servia a um mundo não mais assombrado por demônios – para lembrar o título do livro de um doa maiores divulgadores da ciência, Carl Sagan. Outros mais recentes (Richard Dawkins, autor de “Deus, um delírio” e Christopher Hitchen, autor de “Deus não é grande”, para citar dois mais famosos) ganharam notoriedade na esteira de um crescimento do agnosticismo/ateísmo, especialmente no mundo ocidental, em particular na Europa, lugar em que, é fato, o cristianismo, religião ainda majoritária, vem perdendo força.

Por honestidade intelectual, deve-se dizer que, sim, o cristianismo tem momentos de afirmações que contrariaram fatos hoje comprovados e que, naquele momento, iam contra alguma forma de interpretação.

Em 2005, o papa João Paulo II protagonizou alguns pedidos de desculpas durante seu pontificado – em especial no ano 200, ano do jubileu – por atos da Igreja em momentos do passado, incluindo um mea-culpa pela condenação à prisão perpétua de Galileu Galilei por afirmar que a terra girava em torno do sol.

A ciência, entretanto, não tem como objetivo negar a religião, embora muitas pessoas usem afirmações científicas para questioná-la. A ciência é movida por desafios, curiosidade e o desenvolvimento da raça humana. A religião, por sua vez, não tem como objetivo criticar a ciência. Ela se ocupa da fé e da relação do homem com Deus. Este é seu campo e, necessariamente, não antagoniza com a ciência, ainda que alguns criem pseudoembates entre ambas.

A verdade é que várias pesquisas vêm se debruçando sobre a espiritualidade e descobrindo os muitos benefícios que ela proporciona aos seus praticantes. A prática regular de uma religião está associada a bem-estar geral e melhor capacidade das pessoas enfrentarem os reveses.

A prática regular da espiritualidade dá sentido e significado à pessoas e este também é um resultado positivo que a pesquisa aponta. Ela aumenta o sentido de ser parte por ser membro de uma comunidade de acolhimento. Outro resultado aponta que as pessoas religiosas tendem a ter casamentos mais estáveis.

A ciência perdeu o preconceito em afirmar quão boa é a prática da espiritualidade, pois usando seus próprios métodos, baseados em evidências, aponta os benefícios alcançados pela prática. A religião, por sua vez, está muito mais aberta às verdades científicas. Parece que essa relação instaura um bom momento para se viver.

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA