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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Por que a Covid-19 está matando mais homens?

28 de novembro de 2020

A pergunta do título deste artigo tem intrigado os cientistas mundo afora. A plataforma internacional Global Health 50/50 – dedicada a coletar e investigar os dados das questões ligadas à igualdade de gênero, com foco na área da saúde – divulgou que, até o início deste mês de novembro, 69,4% dos óbitos dos 34.187 infectados no Peru eram homens. Na Itália, Equador e México, os dados também revelaram esse mesmo fato. No Brasil, onde a plataforma só divulgou números parciais, foi constatado que 57,8% dos acometidos pelo coronavírus também eram homens.

Quem primeiro alertou para esse fato foi o geneticista israelense Sharon Maolem, que publicou artigo no New York Times. Ele é autor do livro The Better Half: On the Genetic Superiority of Women (A melhor metade: sobre a superioridade genética das mulheres) em que registra algumas de suas descobertas nesta área da ciência. Em entrevista, Maolem argumenta, com números, que “a razão fundamental é que as mulheres têm um sistema imunológico mais forte”.

Mas será apenas isso? Uma, digamos, vantagem genética? “Mulher é desdobrável”, vaticina Adélia Prado. E a riqueza extraordinária dessa condição foi descrita por Clarice Lispector: “(…) Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva.” O fato de elas serem mais imunes aos efeitos deletérios, que a pandemia trouxe, também pode estar associado ao fato de cuidarem melhor de si mesmas. São mais preocupadas com a saúde e, indubitavelmente, adotam uma vida mais organizada, quando se fala de cuidados, prevenção e precaução.

Ainda assim, o fato de as mulheres ocuparem, hoje, muito mais destaque – de forma merecida, fruto de lutas e combates de suas antepassadas – o mercado de trabalho as expõe também a outros riscos que não apenas aqueles ocasionados por vírus e bactérias. Doenças cardíacas e crônicas que, há apenas alguns anos, atingiam em grande escala mais os homens, são agora problemas a serem debelados por elas também.

Voltando ao ponto de partida: elegemos novembro como o mês de referência da prevenção do câncer de próstata, mas também deveria ser de cuidado integral com a saúde do homem, pois os dados revelados pelo pesquisador são um alerta que não deve ser desconsiderado. Os homens também devem assumir uma postura mais ativa diante da incerteza e do acaso que as doenças oferecem.

Mesmo neste mundo em que as fronteiras da sexualidade foram redefinidas e onde o respeito às opções, preferências e aos gostos de todos deve ser uma conduta de boa convivência, numa sociedade que se quer mais inclusiva, plural e democrática, não devemos esquecer que a constituição físico-biológica ainda reclama por um olhar diferenciado e uma atenção esmerada, sob pena de nos depararmos com uma realidade em que famílias possam ficar seriamente desfalcadas, na perspectiva de um futuro sombrio. Como alerta Hannah Arendt: “a pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir”.

O certo é que a condição humana nos iguala. Se, de fato, uma vantagem genética distancia homens e mulheres das garras da Covid-19, não podemos ignorar um cenário que não apenas o vírus protagoniza, mas milhares de outras enfermidades que não escolhem vítimas. Talvez ainda seja cedo para traçar prognósticos, mesmo diante de números tão assustadores, mas a informação que chega cedo nos pode auxiliar a adotar estratégias corretas no enfrentamento desse mal ainda insidioso. A existência da humanidade, como a conhecíamos, está em xeque. E isso deve ser levado em conta.