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Academia Maranhense de Letras

Ubiratan Teixeira

Cadeira ubiratan-teixeira


Poetas novos na literatura maranhense

4 de abril de 2014

Um grupo de jovens de nossa comunidade, na faixa etária que vaidos vinte aos trinta anos, começou, tempos atrás, a usar a internet e seus diferentes recursos para uma forma de relacionamento menos usual que a troca de opiniões sobre o nada e a coisa nenhuma; discutiam cultura literária entre nós a partir do que está estabelecido, sobretudo no campo da poesia. No ocaso do ano passado, Eduardo Filipe, meu neto especial, insinuou-se pelo meu espaço de trabalho doméstico, puxou o tamborete e disse que precisava ter uma conversa especial comigo sobre algo que estava acontecendo.

– Grave? Indaguei, naturalmente.

– Dependendo do ponto de vista de cada um…

Quem conhece a criatura deve concordar comigo: apesar de ainda muito jovem (o que são vinte e seis anos nas costas de um brasileiro bem nascido, que segue uma reta traçada com sabedoria?) Filipe tem a lucidez de um monge e a sensatez de um bem-aventurado.

– Manda lá; estou pronto.

– Baleia… (é como carinhosamente ele me trata, recordação do período de tempo em que meu peso andava pela estratosfera).E foi revelando sem tropeços, sem gagueira, livre de qualquer circunlóquio como começaram e por que começaram a coisa, quem faz parte do grupo até ali, o que fazem como membros da sociedadeno seu dia-a-dia rotineiroe que os levou a escolher poesia como complemento de vida mesmo fazendo parte de uma sociedade onde o que preocupa é a teoria da mais valia. Leem muito; estudam o tempo todo considerando que nunca é demais. Diferente dos poetas tradicionais, nenhum tem tuberculose, todos têm posição de relevo na sociedade de consumo, famílias bem constituídas e saudáveis metas econômicas e sociais a serem ainda atingidas.

Queriam sair do espaço virtual, se instalar no mundo material, participar com a comunidade suor e sangue de forma palpável.

– Queremos que nos consiga um espaço onde possamos uma vez por mês nos reunir para discutir essas coisas que pensamos com um talento local, incluindo nossas dúvidas.

Fazer o que? Procurei minha parceira de Academia, a professora Ceres Costa Fernandes, Diretora do Centro de Criatividade, que prontamente franqueou uma das dependências da Instituição. A convidada para a primeirapalestra/debate foi a poetisa Laura Amélia, também ilustre membro de nossa Academia de Letras, que deu uma aula de vida intelectual e discutiu inteligentemente as questões propostas. Um segundo encontro, logo no mês seguinte, foi com o poeta e agitador cultural Celso Borges, que não faria diferente.

Seguiriam essa rotina? São jovens e borbulhantes inconformados com qualquer tipo de mesmice.

Atraídos por um Edital da Fapema para publicação de livros, reuniram a produção de onze de seus membros e formataram um volume de quase duzentas páginas que estão intitulando “Marcha pela Poesia” e tentando os devidos recursospara sua publicação. Pedi para ler o material, não que eu seja alguma referência: mas calejado como estou pelo exercício da leitura crítica considero-me capaz de uma avaliação sensata. E confesso ao leitor que não acreditava lá essas coisas no talento dos poetas muito embora a leitura, pelo menos do meu Filipe seja de nível excelente, onde circula Breton, Murilo Mendes, Malharmé, Fernando Pessoa, Pound, Drummond, entre outros especiais e modéstia à parte, suas amizades são altamente selecionadas. E me surpreendi; o material é bom. Os poemas seriam chancelados de imediato por qualquer bom intelectual em exercício, longe que estão daquela coisinha bem arrumadinha do principiante ainda sem o domínio preciso de seu instrumental: fazem serias reflexões sobre a existência da espécie, debatem a forma de ser de nossa sociedade, questionam os sentimentos, discutem a política; mas também cometem deliciosos momentos de amor e felicidade: são humanos, profundamente humanos como poetas.

Fiz prazerosamente o prefácio para a obra. O Presidente da Academia de Letras, jornalista Benedito Buzar não vai se arrepender por ter chancelado o documento encaminhado para a Fundação, nem a Fapema, publicando a obra, passará vexame, com um detalhe: a história literária maranhense estará ganhando novos nomes brilhantes.