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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


PÍTI, A ANDORINHA OU EU E OS BICHOS

19 de maio de 2020

Em nossa casa do Centro, havia um exíguo quintal pavimentado que não favorecia a criação de animais, ainda que de pequeno porte. Mas vá tentar convencer quatro crianças a aceitar argumentos e ponderações contrários ao forte desejo de acolher bichinhos de estimação. Daí que, durante a infância dos meus filhotes, fui obrigada a conviver – e digo, sem nenhum remorso, que não sou chegada à convivência intima com nenhum tipo de animal, me bastam os humanos – com três cachorros, um vira-latas e dois pequineses; três coelhos e dois jurarás. Em épocas distintas, bem entendido. O que aprontaram esses adoráveis animaizinhos nem queiram saber. Muitos dias de purgatório me serão abonados pelo muito que aturei. Não exagero, se incluir na lista também uma rápida convivência com uma colônia de formigas corredeiras, instalada em um aquário – onde, obviamente, não quiseram permanecer – e com um tamanduá-mirim, comedor de cupins, ambos trazidos por meu filho-cientista-em-projeto, e impiedosamente expulsos. Não o filho, bem entendido, mas a colônia de esforçadas formigas, devidamente exterminada por inseticida, e o tamanduá, devolvido ao manguezal de origem, acompanhado do respectivo lanche. Mas entre os rói-róis e xixis de coelhos e cachorros, corridas noturnas ao veterinário e, ainda, o misterioso desaparecimento de um jurará, enterrado(!) em nosso minúsculo jardim, houve um animalzinho que encheu a casa só de enlevo e ternura. Foi uma andorinha de asa quebrada, que nos caiu literalmente do céu, direto em nosso quintalejo. Parecia tão coitadinha, que mereceu o nome de Píti. Logo, providenciamos um arremedo de curativo que o tempo nos mostrou estar correto. Enquanto se processava a cura, Píti comia na nossa mão e andava pela casa muito à vontade, tanto que precisávamos de cuidados para não pisá-la inadvertidamente. Quando sarou e alçou vôo, foi uma vitória de todos. Havíamos recuperado uma vida. Alegria e tristeza. Voltaria? Voltou. Uma, duas, muitas vezes. Um dia, não voltou mais. A decepção se instalou na casa, juntamente com as muitas conjecturas. Ingratidão? Teria sido morta? Por mão e baladeira ou comida por um gavião malvado? Teria arranjado um companheiro e estaria cuidando de um ninho cheio de bebês-andorinhas? Por consoladora, esta foi a nossa escolha. Os filhos cresceram, os netos vieram. Outro cenário, uma casa perto do mar, com um quintal grande e cheio de plantas. Continuo sem apreciar animais, mas quem se importa? A minha sina estava escrita. Maktub! Agora, se descuido, sou lambida pela língua gotejante de um enorme Rottwailler, que, sabe-se lá o motivo, salta em cima de mim ao menor sinal de apreço. Sempre que passo por ele, fico ereta, gélida e distante. O truque é esse. Com o aumento do terreno, variamos os animais. Houve um cavalo, belo e de maus hábitos: roer colunas e escavar pisos. Foi banido para a Baixada. Temos uma família de camaleões gordos, proprietários do terreno, que passam o dia pelos muros aquentando-se ao sol. Nem aí para nós. O mais saliente deles, apelidado, pela netinha Marília, de Lorenzo, acompanha, de cima de uma folha de coqueiro, os encontros familiares e chega bem perto de nós sem demonstrar receio. Passarinhos fazem, sem o menor respeito, vôos rasantes sobre nossas cabeças enquanto almoçamos na mesa de fora. Sapos, esses, temos a granel. Inclusive um, grandão, o pai de todos, que inferniza a vida do cachorro: adora senta-se em cima da tigela de ração do coitado.Nem vassoura dá jeito. Uma gata da vizinhança, driblando o cão, não deixa de dar uns bordejos na área e até dorme na mesa do jardim. Como vêem, moro num zoológico. Deve ser praga de madrinha. E mais, os adoráveis bichinhos, xodó dos netos, são “imexíveis”. Por falar nisso, se virem por aí um camaleão jovem, ainda esbelto, com ar malandro, que atende pelo nome de Lorenzo, por favor, me avisem. É que o folgado, desejando prestigiar o ministro da economia, levantou o traseiro, bem da folha do coqueiro, aquela por cima da piscina, e fez baixar os juros. Tal ato patriótico levou o caseiro a pegá-lo pelo rabo e arremessá-lo por cima do muro. Ofendido, Lorenzo não retornou. E como Marilinha deve vir passar as férias, estou em sérias dificuldades… E por tudo isso, homenageio a mim mesma e a todas as mães que, embora não tendo afinidades com esses adoráveis bichinhos – as que gostam estão fora da homenagem – aturam todas essas coisas e muitas outras por amor a filhos e netos. Eita nós!