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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Pandemia: essa chuva repentina

12 de setembro de 2020

Era o encerramento do Simpósio A Pandemia e A Literatura, da Academia Nacional de Medicina, quando o confrade Gilberto Schwartsmann, idealizador do evento, atravessou domínios literários, filosóficos e mitológicos, para pensar sobre as pestes, centralizando suas reflexões no mito de Prometeu, que aparece, pela primeira vez, em Teogonia (versos 507 a 616) de Hesíodo, poeta épico grego do fim do século VIII a.C. e na tragédia grega, Prometeu Acorrentado, tradicionalmente atribuída a Ésquilo, dramaturgo grego do século V a.C.

Era o encerramento do Simpósio A Pandemia e A Literatura, da Academia Nacional de Medicina, quando o confrade Gilberto Schwartsmann, idealizador do evento, atravessou domínios literários, filosóficos e mitológicos, para pensar sobre as pestes, centralizando suas reflexões no mito de Prometeu, que aparece, pela primeira vez, em Teogonia (versos 507 a 616) de Hesíodo, poeta épico grego do fim do século VIII a.C. e na tragédia grega, Prometeu Acorrentado, tradicionalmente atribuída a Ésquilo, dramaturgo grego do século V a.C.

A obra narra as peripécias dos titãs Prometeu e Epimeteu que, por obedecerem a Zeus, na guerra contra Urano, foram comissionados a dar dons aos seres vivos sobre a Terra. Prometeu tinha a inteligência para antever os fatos. Já Epimeteu, a falha da precipitação: deu aos pássaros, as asas; ao elefante, a força; aos leões e tigres, as presas e garras. Mas, aos homens, nenhum dom específico. Eram frágeis e dotados de vida insignificante. Prometeu se afeiçoou aos humanos e pretendeu dar-lhes o conhecimento, simbolizado pelo fogo, sob o domínio de Zeus e dos demais deuses do Olimpo. ‘Defensor da humanidade e dono da capacidade de antever, rouba o fogo dos deuses e o entrega aos homens, para que estes subjugassem os animais, se aquecessem e cozinhassem seus alimentos. Prometeu se torna então o símbolo da libertação do homem do cativeiro dos deuses’.

O confrade nos conta que, para roubar o fogo, Prometeu tenta enganar Zeus, o que lhe desperta profunda ira: ‘nega aos homens o poder do fogo que representaria a inteligência, sem a qual os homens seriam como sombras de si mesmos’. Prometeu foi condenado por Zeus a ser amarrado por poderosas correntes forjadas por Hefestos. Preso a uma rocha, tinha, diariamente, o fígado comido por uma águia, regenerando-se à noite. Schwartsmann abre um parêntese e faz alusão aos ‘fantásticos transplantadores de fígado que, com destreza e mãos hábeis, retiram os modernos prometeus do castigo da águia devoradora’. Segundo Hesíodo, Prometeu foi liberto, muito tempo depois, com a permissão de Zeus. Por sua vez, Epimeteu também foi duramente castigado por meio de Pandora. Na noite de núpcias, a caixa, presente dado por Zeus ao casal, foi aberta por Pandora, e de lá saíram todos os males do mundo, menos o pior de todos, o que acaba com a esperança.

O confrade apoia-se também na tese de Nietzsche, super-homem/além-do-homem, e nos guardiões do Mito da Caverna, por Platão, para a ideia da superação. Cita ainda Alessandro Manzoni, e sua clássica obra Os noivos, que aborda de forma indireta os horrores da peste, na Itália, entre 1630 e 1640. ‘A peste é a vingança do bem contra o mal e funciona como elemento de depuração da sociedade, cujo símbolo é a chuva repentina que vem para purificar aquela população, como símbolo de vitória. Nas lutas entre o bem e o mal, aquele sempre triunfará’, constata.

Percebi, na correlação do mito de Prometeu com Os Noivos, o Mito da Caverna e super-homem, que Schwartsmann articulou possibilidades de projetar as consequências da ousadia do homem em confrontar os deuses; o poder dos deuses de castigar os homens; a dependência humana para se livrar do castigo; a perspectiva do fim da maldade; a possibilidade de regeneração, tudo em que é inevitável pensar no contexto das pragas, sob a frágil condição humana. Diante do confronto de sua ousadia, o homem fica sem respostas para perguntas que não se convertem em teses. Apenas em hipóteses pouco prováveis.

Ou seja, ‘pode ter o homem todo ardil e coragem, mas não poderá jamais ignorar as leis universais’ que apontam para seus limites. Para isso, ‘a eficácia da ciência e a força do amor são as armas a serem utilizadas para debelar os efeitos deletérios da peste que a todos irmana, diante da ira dos deuses que não dura para sempre’.

Naquele evento de densa erudição, muitas obras literárias foram relidas e dadas à projeção da história. Elas não se destinam só ao tempo em que foram escritas. Os fatos são outros. Mas a categoria é a mesma. E a realidade se repete como consequência de um tipo de teimosia humana, que insiste em não aprender com a evidência de erros. E persistem as questões sobre a ousadia do homem, colocado diante das provações, purgação, como castigo, e purificação, como restauração, a abertura para a esperança na pandemia, essa chuva repentina que cai, para lavar o mundo, como catarse.