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Academia Maranhense de Letras

Benedito Buzar

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Pacto de Solidariedade

2 de agosto de 2015

Pouca gente sabe que sou detentor de um expressivo arquivo político. Não conheço ninguém em São Luis que tenha documentos originais ou impressos de jornais, do passado e do presente, tanto quanto eu. Reconheço que não dou aos mesmos o tratamento técnico, como manda a ciência arquivística, mas faço o possível para manter essa farta e preciosa documentação em boas condições de uso.

Recentemente, encontrei uma boa alma que me convenceu a perenizar e a deixar à posteridade tantos e tão preciosos documentos: o meu querido amigo e confrade Joaquim Haickel. Por meio de uma parceria, começou a digitalizar toda documentação manuscrita, impressa e fotográfica, esta com mais mil imagens, que recolhi ao longo do tempo, especialmente com respeito à vida política maranhense e que guardo com carinho.

Digressões à parte, que venha o que interessa. Em São Luis, a ordem do dia gira em torno de pactos. Diante disso, nada melhor do que comentar e trazer a lume um documento com assinaturas de senadores e deputados do Maranhão, publicado em jornais da época em que foi produzido.

O documento registra o sentimento de contrariedade de um grupo político ao governador que então ocupava o Palácio dos Leões. Tudo aconteceu nos idos de 1984, portanto, há mais de trinta anos, com a divulgação do Pacto de Solidariedade, que pregava a insurgência da representação do PDS do Maranhão no Congresso Nacional ao comando do governador Luiz Rocha, pelo modo como conduzia os destinos do Estado e tratava os companheiros de partido.

Esses desencontros do chefe do Executivo do Estado com a bancada federal já vinham ocorrendo, mas faziam parte da rotina política. Só chegaram ao domínio da opinião pública a 8 de janeiro de 1984, no momento em que a imprensa de São Luis divulgou com certo estardalhaço o Pacto de Solidariedade, tendo como signatários os senadores Alexandre Costa e João Castelo, o vice-governador João Rodolfo Ribeiro Gonçalves e os deputados federais Bayma Junior, Magno Bacelar, Eurico Ribeiro, Jayme Santana, José Burnett, José Ribamar Machado, João Rebelo, Edison Lobão e Nagib Haickel, todos do Partido Democrático Social.

O impacto que o documento causou na sociedade foi bombástico, até porque não se imaginava que com Luiz Rocha no governo, eleito pelo povo, depois de três governadores com mandatos indiretos – Pedro Neiva, Nunes Freire e João Castelo, os políticos maranhenses pudessem se estranhar e entrar em rota de colisão tão prematuramente.

O governador, contudo, não engoliu a seco o pacto. Como bom sertanejo, deu o troco em entrevista à imprensa.

Depois de algumas considerações para explicar e justificar o lançamento do pacto, os signatários alertaram que o documento não tinha o propósito de embargar a ação política ou administrativa do governador, de obstruir o seu caminho e nem estava contaminado de qualquer prevenção ou má vontade para o com o seu governo.

Em vez da desagregação, da divisão, do esfacelamento e da dissidência, o que desejavam era a união para “o Maranhão, onde a cada dia aumenta a miséria, avoluma-se a fome e cresce o desemprego, se reencontrar com os atos revestidos de grandeza, desprendimento e resignação”.

Ao final do documento, uma advertência foi endereçada a Luiz Rocha: “A partir desta data, nosso apoio passa a depender do respeito, da consideração e do tratamento dispensados aos que ora se unem em função dessas ideias e princípios”.

O governador, contudo, não engoliu a seco o pacto. Como bom sertanejo, deu o troco em entrevista à imprensa. Discordou do teor do documento assinado por dois senadores, o vice-governador e nove deputados federais do PDS, e ainda mandou este atrevido recado: “Para governar o Maranhão, dispensava do apoio dos signatários do Pacto de Solidariedade”.

Foi o bastante para o surgimento de uma tréplica e do lançamento de um “Manifesto ao povo maranhense” com oito itens, sendo os três primeiros duros e ríspidos contra Luiz Rocha.

No primeiro item, o governador é acusado “de praticar atos que desagregam o partido”; no segundo, mostram o desacordo “com a demissão de milhares de funcionários e pela via oblíqua de realizar um concurso inoportuno”; no terceiro, condenam “as perseguições feitas em todo o Estado, com demissões e remoções de companheiros que contribuíram para a eleição do próprio governador”.

Do quarto ao oitavo item, esclarecem que o manifesto será levado ao conhecimento do senador José Sarney, presidente nacional do PDS; que o senador Alexandre Costa e o deputado Jayme Santana seriam os interlocutores e coordenadores do grupo; que sem a bancada federal o governador não teria viabilizado o empréstimo externo no valor 25 milhões de dólares; e que esperam de Luiz Rocha sensatez e equilíbrio para a retomada do “diálogo com a classe política e governar em sintonia com os companheiros de partido e com o povo”.

Mas a paz entre Luiz Rocha e a bancada federal não demorou a ser restabelecida. Quem a promoveu foi o senador José Sarney que, com a autoridade de presidente nacional do PDS, fez uma reunião em Brasília, em que muita roupa suja foi lavada, após o que as desavenças e os mal-entendidos foram esquecidos.