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Academia Maranhense de Letras

Joaquim Haickel

Cadeira 37


Opinião ou palpite

23 de maio de 2020

A convite de Anderson Rocha, consultor da Assembleia Legislativa do Maranhão, participei recentemente de uma live, cujo tema foi “As crises de opinião e política”.

Confesso que gostei muito do tema, mas resolvi não tratar das crises políticas, pois elas precisariam de uma live quase eterna! Fiquei mais com a crise de opiniões, uma vez que tenho me dedicado a observação e ao estudo, informal, dos acontecimentos que envolvem a grande quantidade delas, que ziguezagueiam por todos os lados, motivadas, em meu entendimento por dois fatores primordiais.

O primeiro se deve ao fato das pessoas terem descoberto que ter opinião é bonito, que as fazem serem vistas, notadas e comentadas, que as coloca em evidencia. Ter opinião faz com que a pessoa se sinta dona de um direito e o exerce porque pode, e mais que isso, a lei maior de nosso país, a Constituição federal, lhe garante esse direito.

O segundo motivo é devido ao acesso à tecnologia que tornou coisa do passado, completamente obsoleto o uso de lugares como o tradicional Speakers’ Corner, o canto do orador, local situado a nordeste do Hyde Park, em Londres, onde qualquer cidadão pode fazer discursos, desfraldar suas bandeiras e defender suas opiniões, uma vez que a imensa quantidade de redes sociais, faz com que as pessoas possam não só uma maior quantidade de ouvintes, como eternizar seus discursos, suas opiniões em gravações que recorrentemente aparecem nas telas das pessoas pelo mundo afora.

Mas há um problema estrutural na opinião. Tudo bem ela é um direito de todas as pessoas. Eu mesmo fui um dos redatores do capítulo dos Direitos e Garantias Individuais de nossa Constituição e acho correto e saudável para o regime republicano e o sistema democrático que todos sejam completamente livres e tenham suas opiniões.

Ocorre que para que se tenha uma opinião abalizada, correta, o mais referenciada e confiável possível, é necessário que se tenha algumas coisas que a maioria das pessoas não têm. Nem vou falar dos aspectos subjetivos, como inteligência cerebral e emocional, bom senso, discernimento… Mas quem não tem acesso ao conhecimento formal, à educação, à noção de cidadania, quem não tem acesso à informação jornalística confiável, quem se guia por paixão e não por razão, não pode exercer na plenitude seu direito a opinião.

Quem faz isso usa seu direito de opinar, mas ocorre que sua opinião nada mais é que reflexo das informações distorcidas que chaga até ele, da manipulação psicológica, jornalística, filosófica, política, ideológica, religiosa…

Alguém que defende a ideia de que a terra é plana, tem uma opinião, mas ela é cientificamente errada! Isso não pode ser tido como opinião aceitável!

Quem é vítima dessas coisas não tem opinião, tem palpite. Defende uma ideia que normalmente foi formulada por outra pessoa. Uma ideia com a qual ela simpatiza, e se subordina, mas com a qual ela não pode manter uma relação de liberdade, pois essa pessoa não tem os instrumentos necessários para analisar correta e minuciosamente se essa ideia tem fundamentos embasados na verdade e na realidade.

Este é um terreno muito nebuloso e pode parecer que meu argumento deseja limitar sumariamente o direito a opinião. Longe de mim! O que eu desejo é que todas as pessoas possam realmente defender suas opiniões com as devidas e necessárias condições de analisa-las pelos mais diversos ângulos, usando as regras dos métodos cartesiano, dedutivo, indutivo ou dialético, deixando o empirismo em último plano, pois ele é comprovadamente o método de conhecimento que mais acarreta erro.

Esse parece um papo muito cabeça e para provar que não é, vou lembrar-lhe uma história que todos conhecem, a fábula de Esopo, sobre um velho, um menino e um burro.

Os três iam por uma estrada. Passou alguém e disse que era um absurdo que aquela criança andasse, que ele deveria ir sobre o burro. Mais adiante, outras pessoas deram opinião diferente. Absurdo era o menino ir no burro e o velho andando. Pouco depois passou outra pessoa e disse que era burrice não irem os dois montados no animal. Uns quinhentos metros adiante alguém criticou os dois por estarem sacrificando o pobre animal, que o animal estava esgotado, que os dois deveriam carregar o burro.

Foram quatro opiniões diferentes. Todas legítimas, mas não necessariamente corretas.