Blog

Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


ONDE ANDARÁ LIDONEZA

28 de março de 2020

Lidoneza (nome fictício), da mesma idade que eu, quatro anos ou talvez meses mais nova, meiga e bonita, cabelos, negros, lisos e curtos, pele alva e rosada e jeito tímido. Chegou a minha casa pela mão da Justiça, no caso meu pai, à época, juiz de direito de Barra do Corda. Veio morar temporariamente conosco. O motivo era bem triste: abandonada pela mãe, que foi cuidar de sua vida, vivia só com o pai, desempregado e que, constantemente, se embriagava. O pobre homem a amava, mas quando bebia, deixava a menina só em casa, às vezes, por dias. Recebida a denúncia dos vizinhos, meu pai retirou-lhe a custódia da filha. Guardo o quadro doloroso do pobre homem a implorar que não lha tirassem, prometendo regenerar-se. Meu pai deu-lhe a sentença, parasse de beber e arranjasse um emprego; a menina lhe seria devolvida. Antes, não.
Sem entender, me angustiava o porquê de meu pai ter que tomar decisões como essa de separar pai e filha. Enchia-me de perplexidade aquele poder quase divino sobre vidas alheias. E, do alto dos meus quatro anos, achei que papai agira errado.
Súbito, essa lembrança, após tantos anos, deu-se no lançamento de um livro do meu amigo e confrade da Academia Maranhense de Letras, o desembargador Lourival Serejo, autor de vasta bibliografia, livros de crônicas, contos e poemas. Nessa ocasião, lançava ele mais um livro, creio que o quarto, da sua seara jurídica. Formação do juiz- anotações de uma experiência, escrito em notas cronológicas, registradas desde sua posse, em 1981. Ali comparece o juiz, sempre preocupado com o acerto no desempenho de sua profissão. Essas anotações são destacadas pelo seu prefaciador, o Desembargador Federal Leomar Amorim, como “um código de ética para quem é e quem queira ser magistrado”.
O lançamento ocorreu no salão nobre do Tribunal de Justiça, terreno palmilhado, muitas vezes, por mim no passado. Enquanto permanecia na fila à espera do autógrafo, passei a folhear o livro, atraiu a minha atenção a anotação datada de 20 de outubro de 1995: “Pela segunda vez, volto a ocupar com exclusividade uma vara de família […] um juiz de família deve possuir muita maturidade, sensibilidade e conhecimento para lidar com os sofrimentos e lágrimas das pessoas que por ali passam.” Mais adiante, no dia 19 de dezembro de 1995, Serejo reforça: “Fiquei hoje bastante consternado, por ter decidido a guarda de um menor. Os choros e reações deixaram-me indeciso sobre o acerto da minha decisão.”
E no ambiente familiar do Tribunal, ainda na fila de autógrafos, minha mente volta à história de Lidoneza. A chegada da menina encantou minha mãe. Uma menina comportada e dócil, em quem ela podia experimentar vestidinhos e penteados. Alguém que passava horas brincando com bonecas, sentadinha no chão e ainda era carinhosa, era certamente um presente. Tão diferente da filha avoada que vivia despenteada a correr pela rua, acompanhada da molecada, com braços e pernas escalavrados pelas quedas.
No começo, fiquei emburrada, que fazia aquela estranha ocupando meu lugar? Que diabo de cabelo era aquele tão lisinho e brilhoso e que não desmanchava um fio? E como ela podia passar o dia todo sem se desarrumar? Pensei em dar-lhe uns petelecos, mas ela não aceitava provocações, me desarmava sempre com um sorriso doce. E se eu a oferecesse para os índios, que me atemorizavam e viviam em visita ao meu pai? Eles não levaram a “infeliz Perpetinha”? Porque não levariam a enjoadinha Lidoneza? Desisti, enfim, era bom ter alguém para se ocupar daquelas bonecas sem graça e vestir os terríveis vestidos de organdi bordado, pinicando no pescoço, que minha mãe engendrava. Ao fim e ao cabo, acabei gostando dela, mais ainda, quando percebi que entre eu e meu pai as coisas não haviam mudado. Eu é que andava na garupa do cavalo dele, viajava nas canoas e bebia gema de ovo cru, quebrado na borda do barco, quando das viagens de rio.
Um belo dia, sempre há um belo dia, o pai de Lidoneza voltou, livre do vício, com emprego fixo, para buscar a menina. Meu pai a entregou. O choro então foi meu e de mamãe, novamente meu pai teve que julgar uma separação familiar. Andamos por outras comarcas e, anos depois, já em São Luís, a reencontramos. Ela então era uma mocinha, por volta dos doze anos. Fez-nos uma visita, continuava bonita e meiga e estudava no Colégio São Vicente de Paula. O pai não voltara a beber e tinha emprego fixo. Enfim, há histórias com desfechos felizes.
Houve talvez mais umas duas visitas e depois, com a doença de meu pai e seu falecimento, minha mãe se mudou para o Rio de Janeiro e perdeu o contato com Lidoneza. Nunca mais soubemos dela.
E naquele Salão Nobre, perdida em recordações, me indago o que terá acontecido com aquela que compartilhei um pedaço da minha infância, será mãe, será avó, ainda vive? Por onde andará Lidoneza?