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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Obreiro do conhecimento

22 de novembro de 2015

Os compromissos alusivos à minha despedida do cargo de reitor da UFMA não me permitiram tecer algumas palavras sobre um personagem muito querido da história do Maranhão, que, por coincidência, carregava o nome do Estado em seu sobrenome: monsenhor Hélio Maranhão, que nos deixou há poucos dias.

Tive a oportunidade de muitas vezes ouvi-lo em suas prédicas, nas quais ele entremeava fatos da vida cotidiana com versículos bíblicos, história, exemplos de santos homens e a sabedoria que conseguiu erigir ao longo da vida.

Hélio Maranhão era um homem múltiplo e, por isso, é difícil descrevê-lo em poucas palavras. Contudo, vou tentar me ater em sua faceta de educador. Devido ao conhecimento, conseguiu ascensão na vida. Sempre dispunha de tempo para incentivar e motivar os jovens a seguirem na mesma senda. Lendo sua biografia, constatei algumas de suas formações: licenciou-se em Filosofia, em Teologia, fez diversos cursos na área de Didática, foi docente das disciplinas de Filosofia e História da Filosofia, Sociologia e de várias outras no Seminário Santo Antônio. Em Tutóia, foi um dos fundadores da Escola Almeida Galhardo. Na mesma cidade, criou as Comunidades Eclesiais de Base e a Academia de Ciências, Artes e Letras. Em Codó, dirigiu o Colégio Codoense.

Além disso, coordenou o ensino religioso do Instituto de Educação do Maranhão, em 1960. Em nível superior, lecionou Doutrina Social na então Faculdade de Enfermagem; Filosofia e Religião, na Faculdade de Ciências Médicas do Maranhão; e, ainda, foi diretor do Departamento de Assuntos Estudantis da UFMA, no final da década de 80.

Revisitando alguns de seus artigos, deparei-me com um religioso equilibrado e sensato, ao emitir sua opinião acerca de uma determinação do então papa Bento XVI que gerou polêmica: a de que as missas poderiam voltar a ser celebradas em latim. Entendeu e justificou o monsenhor à época que o sumo pontífice não havia proferido uma ordem, mas apenas uma permissão aos sacerdotes que se sentissem à vontade em segui-la (artigo “A missa em latim, de novo?”). Encontrei um profundo conhecedor da história das igrejas católicas, muitas das quais centenárias em nossa capital, quando reli o artigo “Os sinos de São Luís”.

Ademais, tive um novo olhar poético acerca do Farol de São Marcos, que nas palavras de Hélio é descrito quase como um ente mítico, acolhedor, referência de nossa forma de existir aqui: “[…] Para os que chegam a São Luís, vindos do mar, o Farol anuncia o lar, o recanto delicioso, cheio de ternuras e afagos. E, para quem nunca saiu da Ilha dos Amores e para quem viveu sempre no apego da terra amada e idolatrada, o Farol é mais do que uma saliência histórica. É um monumento sagrado que monta guarda às tradições da cidade” (in “O Farol de São Marcos”).

Frequentador assíduo das páginas de opinião de nossos jornais, muitos foram os artigos publicados pelo Monsenhor. O apóstolo Paulo aconselhou ao seu jovem discípulo Timóteo que deveria persistir em “ler, exortar e ensinar”. O conselho paulino foi seguido à risca por Hélio Maranhão, que foi além, persistindo também em escrever.

A fructibus eorum cognoscetis eos, pelos frutos se conhece a árvore, verdade inconteste impressa nos evangelhos. Os frutos deixados pelo monsenhor repercutirão em nossas vidas e em nosso Estado por longos anos. Que Deus o receba em bom lugar, Hélio Maranhão!

Natalino Salgado Filho

Doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da AML, do IHGM e da AMM