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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


O vírus, o próprio homem, o racismo e outros inimigos

13 de junho de 2020

Não bastasse o vírus que grassa em todos os cantos do planeta e acumula nefastas consequências, eis que nos deparamos, novamente, com a chaga exposta da intolerável e inaceitável violência racista, na cena recentemente projetada a todo o mundo. Refiro-me ao episódio de Derek Chauvin contra George Floyd. Nos Estados Unidos, o policial rendeu, covardemente, o ex-segurança de um restaurante e, com sua ação, causou-lhe a morte. Agravante: eles se conheciam há vários anos; trabalharam juntos como seguranças num estabelecimento comercial. Chauvin, branco; Floyd, negro.

Floyd estava empregado, até a pandemia se instalar e causar seu desemprego. Em decorrência do isolamento social, o restaurante em que trabalhava não teve mais como manter os funcionários. No dia de sua fatídica morte, ele havia sido detido, por tentar, supostamente, pagar as compras que fizera numa mercearia em Minneapolis, com uma nota falsificada de vinte dólares.

Diante desse fato, as reações ecoaram, imediatamente, por todo o planeta, como rastilho de pólvora. Manifestações e discursos se levantaram, mãos dadas, corações unidos. No Brasil, cursos preparatórios sortearam bolsas para pessoas negras. Manifestos foram publicados contra o que acontecia naquele país, palco dessa tragédia, onde, um dia, o pastor Martin Luther King discursou para uma multidão: “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele”. A frase ainda ecoa como um grito clamando por se realizar. Os EUA, a maior e mais antiga democracia do mundo, carrega essa chaga em seu âmago. E é uma dor social e humana.

Sempre achei o racismo odioso. Na condição de reitor da Universidade Federal do Maranhão, tenho a alegria de ser um dos incentivadores da criação do curso de graduação “Licenciatura Interdisciplinar em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros”, o primeiro a ser criado no país. Também fui o coordenador de um grande projeto que acompanhou as condições de saúde dos quilombolas em Alcântara. Conheci pessoas fantásticas e histórias de afirmação e superação de um passado marcado pela opressão, preconceito e exclusão de toda sorte.

É da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma das mais conhecidas intelectuais da atualidade, a triste constatação: “Racismo nunca deveria ter acontecido”. Mas, infelizmente, aconteceu e ainda acontece, em suas mais diversas e disfarçadas formas, e é um problema que pede contínua vigilância. A razão dessa permanência atende a uma condição social e psíquica do homem: um sentimento de tribo que inferioriza, anula e mata o outro, sobre quem, por algum tipo de razão racista, seja derramado ódio e perversidade. Racismo, eugenia, ideias supremacistas são como uma doença incurável que jamais se afasta do doente e sempre está à espreita para recidivar. A cura é suposta, pontual e momentânea, em situações particulares. A metástase aparecerá em outro lugar do corpo da humanidade.

Os grandes catalizadores são as carências, as vergonhas não elaboradas e superadas que pedem vinganças; as crises econômicas; os cataclismas, que fazem emergir o pior do homem e as colheitas históricas que alimentam os impulsos violentos contra aqueles que são eleitos como bodes expiatórios para o alívio das sombras da alma de certos grupos. Seus efeitos vão se mascarando entre a covardia e o olhar distorcido da cantilena infernal de que são superiores. É esta a natureza básica do racista.

O pano de fundo dessa história conta, também, com o coronavírus. Diante de um fato bárbaro como esse e de outros a que temos assistido, o vírus está lá, à espreita, como uma espécie de gatilho que dispara o contexto propício às cenas como essa de Derek Chauvin contra George Floyd, mais perigosas do que a Covid-19. Infelizmente, deixo impressões preocupantes sobre um trágico episódio de uma guerra cotidiana, entre cujos personagens destaco o vírus, o próprio homem, o racismo e outros inimigos.