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Academia Maranhense de Letras

Jomar Moraes

Cadeira 10


O Senado da Praça – II

2 de setembro de 2015

No final da crônica passada foi referida a existência do pelourinho de São Luís. A respeito desse símbolo da autonomia municipal, Odorico Mendes, aos 17 anos, compadecido do espetáculo de supliciamento de um negro amarrado ao pelourinho da cidade, compôs o seguinte soneto:

“Despido em praça pública, amarrado,

Jaz o mísero escravo delinquente:

Negro gigante de ânimo inclemente

Na mão tem o azorrague levantado.

A rir em torno, um bando encarniçado

Ao verdugo promete um bom presente,

Se com braço mais duro ao padecente

Rasgando for o corpo ensanguentado.

Homens, não vos assiste a menor pena

Dos sentidos seus ais, d’angústia sua?

Rides, perversos, desta horrível cena! …

A sua obrigação, oh gente crua,

Faz o reto juiz quando condena;

Tu, deplorando o réu, cumpres a tua”.

Talvez nem sempre os senadores se lembrem de que das escadarias em frente a esse Poder já desceram, sob vaias da juventude estudiosa, figuras proeminentes da História do Brasil, dentre elas o Conde D’Eu, consorte da princesa Isabel, que por aqui, diante da falta de sorte do Império, já cai-não-cai, passou em campanha política, nem igualmente se lembrem de que, dos balcões do Carmo, dentre as muitas vozes que já se fizeram ouvir, há que ser lembrada a do brilhante negro José do Patrocínio, verberando a sua total condenação aos que se levantaram para destruir a sagrada liberdade de imprensa.

Mas retomando o fio da meada: disseram-nos que a ideia de denominar o sui generis parlamento de Senado da Praça, foi inspirada numa crônica de José Chagas. E de lá para cá o Senado se tornou uma das coisas mais importante de São Luís. Tão importante, que tem até colunas diárias em jornais da cidade.

Assim como os intelectuais maranhenses sempre tiveram um bar de sua preferência, o último dos quais foi o famoso Atenas, fechado há pouco, os senadores têm dois botequins oficiais, onde merendam, compram cigarros e tomam o tradicional cafezinho. E seus proprietários têm nomes que lembram cearense e português: Chico e Joaquim.

Assim como os intelectuais maranhenses sempre tiveram um bar de sua preferência, o último dos quais foi o famoso Atenas, fechado há pouco, os senadores têm dois botequins oficiais, onde merendam, compram cigarros e tomam o tradicional cafezinho.

Ligada à história do bar do Chico, alguns senadores nos contaram esta, do Dr. Michel Nazar: na noite em que o Dr. Facure foi solenemente empossado em sua cadeira, houve uma grande euforia nos mais prestigiosos círculos daquele parlamento. Alguém lembrou que o cafezinho coletivo deveria ser pago pelo novo senador. Mas o Chico também estava eufórico, em virtude da posse de seu amigo. Por esse motivo quis prestar a sua homenagem. E foi logo dizendo:

Hoje ninguém paga nada aqui. Quero também homenagear o meu amigo Facure. E o Dr. Michel, com muita presença de espírito: – Pois então, Chico, em vez do cafezinho, traga-me, por favor, uma bananada.

Dentre os Senadores atuais, mencionaremos os seguintes: governador José Sarney, senador Clodomir Millet, Deputados Federais Cid Carvalho, La Roque, Ivar Saldanha, Alexandre, Temístocles Ferreira e Pires Sabóia; desembargador Kleber Moreira, Antônio Moreira e Macieira Neto; general Colares Moreira; Afonso Matos e José Quadros, médicos; Mário Santos, Ives Azar, Facure, José Coelho, Celso Coutinho e Rui Dias, bacharéis em Direito que são promotores, tabeliões, juiz, advogados. Ali também estão figuras bem conhecidas da cidade inteira, como Luis Regino de Carvalho, Massico, Jorge Tajra, o amigo do Povo. José Salomão (almirante Pena Bôto) e tantos outros.

Não poderiam estar ausentes os intelectuais, que têm seus representantes nas figuras de José Chagas, Amaral Raposo e Bandeira Tribuzi.

Genu Moraes Corrêa e Benita Leal são as duas representantes da mulher maranhense no Senado da Praça. Elas ainda não tomaram posse. Mas o presidente Michel assegura que no dia em que assumirem oficialmente suas cadeiras, haverá uma grande afluência do belo sexo àquela Casa.

Dizem por aí que o deputado Américo de Sousa é também candidato ao Senado da Praça, e que por estes dias estará apresentando ali, formalmente, a sua candidatura. O mesmo ocorre com o escritor Odylo Costa, filho. Isto comprova, de certo modo, que antes de uma disputa eleitoral para a governança do Estado, é de bom alvitre postular uma vaga no Senado. Talvez tal fato seja visto como o primeiro grande passo rumo aos Leões. Sim, porque ingressar nesse Poder torna mais fácil conquistar um dos três Poderes constitucionais.

Mas o Senado não se limita somente a receber candidaturas. Ele também lança os seus candidatos, como acontece atualmente com o senador Amaral Raposo, candidato, e dos mais fortes, à Academia Maranhense de Letras.

Um ponto do código de honra vigente no Senado é a sinceridade. Todos ali devem ter a coragem de dizer o que sentem, “de cara”. Não são permitidas as críticas levianas, nem a ausência dos criticados. O negócio tem mesmo que ser de corpo presente. E a Casa cobra de seus membros, contas do que fazem. Todos têm que de vez em quando comparecer ali, para explicar o que estão fazendo. É questão de princípio do Senado, que tendo sede no Largo do Carmo, reafirma a destinação daquele logradouro, de centro nervoso de São Luís do Maranhão.