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Academia Maranhense de Letras

Ubiratan Teixeira

Cadeira ubiratan-teixeira


“O petróleo é nosso? Yes”

20 de agosto de 2010

Jornal: O Estado do Maranhão
20 de agosto de 2010 - sexta-feira
Por: Ubiratan Teixeira

O Estado abriu pequeno espaço na edição de domingo passado para informar sobre o gás de Capinzal; e uma quase imperceptível chamada para a possibilidade de existência de algumas diminutas infiltrações de petróleo pelas entranhas do subsolo maranhense.

Mas felizmente não ficou nesse descolorido “acho” e “penso” considerando-se que o mais substancioso aconteceu em rodapé da primeira por conta do meu parceiro de Academia de Letras e brilhante cronista dominical José Sarney, que deitou, rolou e esnobou. Que com o currículo que ele tem eu teria feito muito mais.

Não sei se algum desses amuadinhos de carteirinha ainda se lembra quando São Luís foi sede da SRAZ, Superintendência Regional da Amazônia, e que do delta do Parnaíba à foz do Gurupí o cheiro de petróleo era o que exalava no ar para as emissoras de rádio de fornida audiência e jornais de circulação massiva. Quem ainda se lembra das perfurações no município de Balsas, o TB1-MA, que trouxe ao Maranhão aquele magote de deputados federais e senadores da república da patota “O Petróleo é Nosso” para ver o ouro negro borbulhando lá do
fundo do planeta, alegria de Lauro Aires que sentia seu eleitorado crescer: “Não falei, bando de besta, que no roçado eleitoral do deputado Lauro pode até não dá dinheiro em cacho de pitombeira, mas
jorra petróleo do fundo da terra”, esnobava o parlamentar do plenário da Assembléia Legislativa. E como fotógrafo, que éramos, na época, do “Jornal do Povo, fomos lá documentar: e ainda hoje guardo minha garrafinha de azeite de dendê chapada de petróleo com o rótulo nacionalista: “Lembrança do Testa Branca Um”.

Quantos ainda se recordam das torres de perfuração levantadas na região de Pindaré? Das cortinas de água levantada pelas explosões da Schlumberger na baia de São Marcos? Dos catalinas equipados
para prospecção aérea. Dos monomotores de Gaudêncio e Maranhão indo e vindo para abastecer os gringos na baixada, que eles só tomavam banho com água mineral – felizmente era apenas uma vez por semana.

Certo fim de tarde na casa de um dos graduados da Schlumberger, ele murmurava lendo um dos mapas de prospecção que acabava de chegar às suas mãos, voz já engrolada pelo uísque farto, sotaque pesado; “Vocês tão com o rabo assentado em cima de um lençol de óleo que nem o diabo vai conseguir consumir, p.q.p.!”

As equipes de prospecção da Petrobras demoraram alguns anos mas foi d’aqui com toda sua tralha da noite para o dia, a prospectadora recolheu seus equipamentos e nem deu tchau ao matuto, nunca mais ninguém soube dos técnicos Sother, Massaia, Bus, arrolharam tudo, passaram uma borracha pelos sítios explorados mas com certeza não jogaram fora seus mapas e seus relatórios, que segundo  experts no assunto a prática é essa mesmo: que a gringalhada infiltrada é como os arrombadores de luxo que chegam de mansinho, mapeiam minuciosamente sem perder nenhum detalhe e guardam tudo bem guardadinho para quando esgotarem suas reservas em algum outro lugar já sabem onde continuar sua política de “boa vizinhança”.

Só que de repente a bolha explode, mas o risco também é previsível: vamos ter que chamá-los sem tugir nem mugir considerando-se que os nativos não vão saber como operar o produto: vamos consumir nosso gás a peso de ouro.

Acontece que a história avançou, mas permanecemos com a cultura dos bacharéis; a Corte continuou prevalecendo sobre a Tribo, o que vale um oficial de artesão diante do portador de um anel de grau enfiado no anelar? E cheio de nós pelas costas acabamos no ore-e-veja, sem mel e sem cabaça (ou cabaço?), levados aos magotes, em regime de escravidão para misturar barro e encher forma de cimento em arranha-céu sulista por que nem preparo técnico temos para assentar ladrilho e fazer um acabamento em obra de fino trato.

Fizemos todas as revoluções estéticas na história literária do país, desde o primeiro momento até Ferreira Gullar, mas hoje rendemos tributo ao tal “sul maravilha”, obrigados a consumir o produto mal acabado das editoras que comerciam com avidez o falso conhecimento: que aulista, carioca, mineiro e gaúcho endinheirado vão para Havard, Sorbone ou Michigan.

Assim como o gás, que veio a furo, o óleo está lá nas dobras sedimentares que o gringo sabe onde.

Que quando precisarem é só vir e “sangrar”, que jorra.