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Academia Maranhense de Letras

Sebastião Moreira Duarte

Cadeira 01


O Monstro

7 de agosto de 2015

As linhas que puxo toda semana, nesta página, andavam cosendo os últimos babados, quando, sem buscar nem querer, esbarrei com um monstro dentro de casa. Estremeci. Dobrei rápido o tecido, recolhi “novelo e agulha”, enfiei toda a tralha no “balaio das mucamas”, à espera de ocasião mais oportuna em que exibir artes de Minerva.

Daqui por diante, perdoem-me se não mostro dedos “ágeis como os galgos de Diana”, para ir adiante nesta ressonância do apólogo machadiano. Nossos tempos são de apocalipse, eu sei. Mas jamais nos acostumaremos com monstros. Não nascemos para isso.

No maior zoológico do mundo, em San Diego, na Califórnia, minha amiga Rita Schwartz mostrou-me, em 1985, um lagarto duas vezes maior que um jacaré. Era o Dragão de Komodo, na Indonésia, carnívoro antediluviano, que lança uma cusparada asquerosa, capaz de matar quem esteja distante até quatro metros. Trinta anos depois, aquele teiú-gigante me amedronta em pesadelos.

“É um bicho mais perigoso que o mais arqueozoico dos animais. E incrível: está catalogado na espécie humana…”

Acreditem, porém: muito mais nojento que o dragão do zoológico foi o monstro que invadiu-me a privacidade anteontem à noite, pelo noticiário da tevê. É um bicho mais perigoso que o mais arqueozoico dos animais. E incrível: está catalogado na espécie humana, habita entre os humanos, convive entre pessoas, desperta, come, dorme, veste-se, procria (tem três filhas) como gente de carne e osso. Ainda pior: é uma autoridade das mais poderosas entre as que hoje dominam o mundo.

Amarrem-se para não caírem de seus assentos: o monstro é um senador americano. E é chamado com nome de cristão: Rafael Edward Cruz, Ted Cruz, conforme é conhecido entre a (al)cova, a calçada de sua sweet home texana e os corredores de Washington. Para que não me retruquem com um “cruz, credo!”, adianto que o bicho amaciou o traseiro nos bancos escolares mais prestigiosos: estudou Direito – pasmem – em Princeton e Harvard, está licenciado como professor da Universidade do Texas em Austin, foi conselheiro de George W. (não seria conveniente acrescentar um C. depois do W?) Bush, é um dos oito senadores mais jovens dos Estados Unidos, além de candidato à Presidência daquele grande e honorável país.

E como, por lá, qualquer candidato pode ser truão sem precisar ser Tiririca, Ted Cruz meteu-se a ensinar a mais debochada das lições de culinária aos seus cidadãos: “No Texas, nós fritamos bacon de um modo diferente” – ele disse, e, ato contínuo, enrolou uma fatia de toucinho no cano de uma metralhadora. Após descarregar a arma, gargalhou, lambendo os beiços: “Olhem a gordura escorrendo!”

Onde encontrar imagem de maior cinismo e arrogância, ou exemplo mais vil e imbecil sobre o quanto é possível à soberba de um homem? Se os sete bilhões de habitantes do Planeta não merecessem respeito, os texanos, pelo menos, desmentem, em absoluto, a miserável propaganda. Por graça de Deus, e para o bem da humanidade, o povo dos Estados Unidos é muito mais educado que os seus políticos.

Um americano com cérebro em bom funcionamento (há espécimes desse tipo na terra do Tio Sam), Samuel Clemens, mais conhecido como Mark Twain, escreveu o Diário de Adão e Eva. É pena que não tenha escrito também o diário de Caim, para que lá encontrássemos que até o Primeiro Fratricida desaprovaria a boçalidade insolente de Ted Cruz, credo!

Não concordo nunca que uma imagem vale mais que mil palavras, mas sei que uma imagem sugere milhares de associações. Pergunto: a que associaremos o cuspe infame do monstro-senador? Às câmaras de gás nazistas? (Não disse Ronald Reagan que, na Segunda Guerra Mundial, os seus compatriotas combateram o inimigo errado?) Àquela criança nua, correndo queimada pelo napalm, na Guerra do Vietnã? Às degolas do Exército Islâmico, no deserto? Ou, uma vez por todas, ao cogumelo atômico, no amanhecer do Armagedom? O que pode existir de mais fraco, mais covarde e mais estúpido que um homem armado?

Mas não. Prefiro, em contraposição, associar a cusparada do psicopata-candidato às palavras finais de Charles Chaplin, em O grande ditador: “Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. […] A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio, e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e o morticínio. A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia. Os homens que odeiam desaparecerão.”

Tenho dito.

E. T. Este escrito está sendo enviado à Excelentíssima Senhora Embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Senhora Liliana Ayalde, uma vez que não foi possível mandá-lo pelo correio eletrônico ao endereço do senador-candidato Rafael Edward Cruz, em Washington.

smduarte@elo.com.br