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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

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O MÊS MAIS BONITO

2 de junho de 2020

Diz Aluísio Azevedo, em O Mulato, que junho é o mês mais bonito de São Luís. Concordo ao pensar no alvoroço dos arraiais, no som dos tambores que se ouve ao longe, reproduzindo-se como cantos de galos em gigantescos e longínquos quintais, anunciando as brincadeiras de bumba-meu-boi em toda a Ilha. Nesses dias, paira um frisson contagiante entre os jovens e entre os mais velhos que conservam na memória dos corpos os meneios das danças e as batidas dos pandeirões e das matracas. Ao chamado das toadas, reúnem forças esquecidas e mergulham o corpo e a alma nas brincadeiras. Mas a beleza de junho referida por Aluísio não é a da festa popular, e sim a do clima, diz ele: “Aparecem os primeiros ventos gerais, doidamente, que nem um bando solto de demônios travessos e brincalhões que vão em troça percorrer a cidade, assoviando a quem passa, atirando ao ar o chapéu dos transeuntes, virando-lhes do avesso os guarda-sóis abertos, levantando as saias das mulheres e mostrando-lhes brejeiramente as pernas. Manhãs alegres! O céu varre-se nesse dia como para uma festa, fica limpo, todo azul, sem uma nuvem. A natureza prepara-se, enfeita-se; as árvores penteiam-se, os ventos gerais catam-lhe as folhas secas e sacodem-lhe a frondosa cabeleira verdejante…” O trecho é ufanista, eufórico, contrastante com o olhar pesado de crítica e ironia com que o jovem Aluísio vê sua terra natal (não tão diverso do de Eça de Queirós quanto à sua Lisboa). Não esqueçamos que Aluísio seguia fielmente a estética do naturalismo, avessa a “patrioteiras” e bairrismos. O tom negativo do romance deve-se, também, às rusgas e arranca-rabos em que o autor se meteu com os clérigos e representantes da sociedade local. É nesse descrever o clima da Ilha que Aluísio me confunde. Desde muito, ouço falar: abril, chuvas mil; maio, chuva e raio; junho, chuva em punho. E as chuvas, o tempo carregado de nuvens, pouco vento e muito calor, estão aí para desmentir o autor de O Mulato. Junho, em São Luís, ainda é mês de chuva e calor. Lembro-me de domingos desiludidos, em plenas férias de julho, com chuvas, ainda que fracas e esparsas, quando meu pai declarava que não iríamos à praia: o tempo não estava bom. Esse veredito assemelhava-se a um anúncio do fim do mundo. Agosto sim, e aí vou discordar de Aluísio, é o mês mais bonito. É o mês das serenatas, dos ventos, dos redemoinhos, da temperatura amena, dos luares enormes, marés altas e pores do sol inigualáveis. Em dias mais calmos vividos em nossa cidade, era possível chegar do trabalho, pegar os filhos em casa, atravessar a única ponte e, em minutos, já na ponta semideserta, estacionar onde se encontra, hoje, o Iate Clube, assistir de camarote ao pôr do sol e esperar para ver as luzes da cidade acenderem-se. Crivada de luzinhas, São Luís colonial das casas construídas em diferentes planos de terreno que se superpõem, vista á distância, assemelha-se a um presépio. No alto, na ponta que, altaneira mira o mar, destaca-se a alva imponência do Palácio dos Leões. Um deleite para o olhar! Ver as luzes da cidade se acenderem! Parece coisa de matuto. Até pode ser, mas de uma matuta com desejos de incentivar nas crianças a apreensão do belo. Não fui agraciada com algum filho artista, vai ver que o DNA não ajudou, mas espero que as luzinhas desses momentos, meia volta, ainda se acendam lá dentro deles. Fica a dúvida: junho já foi mesmo agosto em São Luís? Segundo Aluísio, sim. Em 1881, pelo menos. Daqui a 139 anos, que mês será agosto, por aqui?