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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


O DIÁLOGO IDEAL E CONSELHOS DE ANO NOVO

7 de janeiro de 2021

A partir dos anos 60 do século passado, se não me trai a safada da memória, institui-se o diálogo como o supremo remédio para todos os males do relacionamento humano. Entraram nessa onda as revistas femininas, com seus conselheiros, os manuais de “amansar pimpolhos”, as relações patrão/empregado e tudo o mais o que é de vida inteligente que se move sobre a terra.
A partir daí, as crianças, que só podiam falar em presença de adultos quando autorizadas – os mais velhos tinham sempre razão –, passaram a dominar o cenário pais & filhos. Tudo deve ser discutido exaustivamente, nos mínimos detalhes, para que Joãozinho compreenda que não deve estapear a irmã ou colocar os tênis enlameados sobre o sofá novo; deve-se estabelecer um longo diálogo antes de proibir qualquer coisa. De outra forma o infante pode ficar traumatizado. Traumas custam visitas ao analista por toda a vida.
Ainda assim, os pais têm bastante dificuldade em encetar diálogo com seus pimpolhos, sejam crianças ou aborrescentes. É preciso um esforço homérico para conter-se e não violar o ECA (que nome) ante os grunhidos e pseudopalavras emitidas por eles durante os “diálogos”: hum… hein… grunf… nananina… só… .fui… Se os esforçados pais conseguirem um “falou, coroa”, murmurado entre dentes, podem considerar-se vitoriosos.
Eu lhes digo que tal desconcerto não aconteceria se levassem em conta o Manifesto Surrealista de André Breton, que, já em 1924, estabelecia, por conta do Surrealismo, como deveria ser o diálogo ideal, baseado na observação da construção da linguagem dos loucos. Por certo, lembrariam-se-iam da louvada riqueza da fala dos esquizofrênicos que, em que cada partícula, segundo Freud, se revestia de múltiplos significados. Poderiam, os aflitos pais, tentar extrair daqueles grunhidos e monossílabos toda a multiplicidade de significados ocultos e entender a beleza e verdade pronunciada pelos herdeiros.
É ainda no estado esquizofrênico, que os surrealistas vão buscar os processos de elaboração do que Breton chama de “diálogo em sua verdade absoluta”. Partindo de um distúrbio da linguagem chamado Ecolalia, em que o doente responde a perguntas sempre repetindo a última palavra do interlocutor, ou remetendo ao sintoma de Ganser, o das respostas absurdas, o surrealista elabora o diálogo ideal. Damos um exemplo citado pelo mesmo Breton: “Que idade você tem? – Tem. (Ecolalia). Como você se chama? – Quarenta e cinco casas. Sintoma de Ganser (ou das respostas absurdas)”. Ao elogiar esse diálogo e ressaltar a superioridade do interlocutor louco sobre o outro que o escuta, Breton tenta demonstrar que as respostas em um diálogo são inúteis, pois quem faz as perguntas não está interessado em respostas, e as palavras proferidas por um interlocutor só são úteis como um “trampolim ao espírito de quem as escuta”. Em suma, no “diálogo em sua verdade absoluta”, o pensamento do outro é colocado como inimigo. Cada um deve se manifestar em solilóquio, sem se preocupar em impor coisa alguma ao outro ou da fala desse outro tentar extrair um prazer dialético particular O conhecimento dessa verdade pouparia dissabores a muita gente, particularmente aos casais.
As revistas femininas mandam dialogar sempre, discutir a relação. Ignoram que para um diálogo são necessárias duas pessoas. Durante o namoro, é mais fácil, os homens demonstram total interesse pelo diálogo. Homem e mulher se interessam pelo mesmo assunto: “de quem é essa boquinha?” “É sua.” “E estes olhinhos?” “São seus”. E esse diálogo chapeuzinho e o lobo por aí vai, cheio de riqueza e profundidade.
Sabe-se que o casamento costuma afetar a capacidade auditiva dos homens, principalmente quando estão lendo um jornal ou vendo televisão. Nessas ocasiões, eles costumam apresentar um sintoma próprio da Ecolalia: só escutam a última palavra pronunciada. Uma dica para as mulheres: acrescentem, aleatoriamente, no fim da frase: bonitão, corno, musculoso, cartão de crédito, personal trainner. Entre outras, essas palavras têm a faculdade de aumentar o poder da audição masculino; Outra maneira de afinar a audição de seu amado é conversar, a certa distância dele, em uma roda de amigas, em meio a muitos risinhos. Ao chegar a casa, você saberá que ele ouviu tudo o que você falou. Aproveite as rodinhas para dizer coisas que você quer que ele ouça. É infalível.
Por outro lado, quando você disser: “amanheci com dor na perna” e ele, em vez de querer saber como está a sua perna, lhe responder como lhe dói o braço desde ontem, console-se: segundo Breton, vocês estão tendo um diálogo em sua verdade absoluta, cada um promovendo o seu solilóquio, sem se importar com a fala do outro. Console-se, também, sabendo que esse é o diálogo praticado por loucos e não loucos em toda a história da humanidade. Isso as revistas femininas não dizem. Quer falar sem parar e receber a atenção do seu interlocutor? Procure um analista, mas também não espere diálogos. Aí, já seria querer demais.
Espero que pais aflitos e casais enamorados (e os nem tanto) aproveitem estes sábios conselhos de Ano Novo. Obrigado? De nada. Feliz 2021.