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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


O DELICIOSO SÃO JOÃO INCORRETO

4 de julho de 2020

Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, / E a consciência disso!… ( Fernando Pessoa) É cada vez mais difícil ser feliz. Coisas antes inocentes, tais como empinar papagaio, tocar fogos de artifício, soltar balões, acender fogueiras nas ruas, transmudam-se em crimes hediondos. Linhas de papagaios provocam apagões, morte por eletrocussão e até por seccionamento de carótidas de motoqueiros! Belos e “inocentes” fogos, brincadeira de crianças de antanho, são responsáveis pela mutilação de milhares de pessoas! Os balões, vilões maiores, artefatos do demo, incendeiam refinarias e plantações. A tristeza de ser consciente volta meu olhar para horizontes interiores buscando uma época e um lugar: a infância e os festejos de São João do Largo de Santiago. Criança, pude curtir nesse mundinho a alegre inconsciência de ser feliz nas festas juninas. A expectativa emocionada do por vir era parte da semana que antecedia a festa: os fogos que meu pai comprava – estrelinhas, chuveiros, vulcões coloridos – guardados para o grande dia, eram conferidos no armário, momento a momento, a ver se realmente lá estavam; o vestido caipira – lindo! -, criação de Maria Costa, era mais que um vestido, semelhava um ser vivo, acariciado dentro do guarda-roupa ou abraçado diante do espelho. E o incomparável frio na barriga ao acompanhar a colocação das bandeirinhas coloridas na rua, liderada pelos dois quitandeiros que demarcavam nosso território, um em cada extremidade do Largo: Zezé Caveira e Seu Guilherme. Na casa de Seu Barbosa, a mágica oficina dos balões, acompanhava-se todas as etapas da construção, cada ano mais sofisticados e com um número maior de lanternas. No grande dia, o auê dos preparativos finais. Em todas as casas do Largo, as famílias providenciavam mingau-de-milho, manuê, cocadas, canjica. A contribuição infantil era a busca de paus para as fogueiras. Percorríamos todas as áreas vizinhas, até o proibido manguezal, atrás da Fábrica de Gelo, da antiga Fábrica Martins. Tudo pronto. É hora de vestir a roupa de xadrez, pintar a boca de batom ( ô, felicidade) e, no pequeno jardim, subir na mureta para soltar os ansiados fogos. É dando-se as mãos que se pula a fogueira e a escolha dos pares desperta ciúmes. Comadres e compadres, jurados ali ao pé da fogueira, são para toda a vida. As simpatias de amor aceleram o baticum do coração: uma faca virgem enterrada na bananeira do quintal escreverá o nome do futuro marido, à meia-noite. Diabo é quem tem coragem de ir ao fundo do quintal à meia-noite. Além do que nem bananeiras há na vizinhança. Simpatia mais fácil é escrever o nome do amado em pedacinho de papel e pendurar numa das lanternas do balão – Seu Barbosa deixa – e o recado vai direto para São João. Ai, meu Deus, não deixes cair o balão. È a Hora!. Atravessar a rua até a concentração do lançamento exige destreza: é preciso ir driblando os busca-pés. Há uma trégua para a subida do balão. Supremo êxtase! É em forma de dirigível! Um Zeppelin! Pendurada, vai uma cruz de lanternas levando os recados. O balão sobe até virar uma estrela. Depois desaparece. São João na certa o recolheu. Olho os anúncios coloridos dos jornais. Dança de bois, cacuriá, tambor-de-crioula, barracas de comidas celestiais, e decido: vou aproveitar a festa antes que declarem que a morte do boi é politicamente incorreta.