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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


O CORONA E O REBANHO

28 de maio de 2020

Imunização de rebanho? Que coisa é essa? Qual rebanho? Bovinos, ovinos ou qualquer outro que seja? Não, trata-se de gente mesmo, população de humanos, considerada, de raso, na sua condição de animal. Essa denominação circula na época de mais uma pandemia que assola o bicho da Terra tão pequeno, a terrível COVID. Teoria, defendida por um grupo que preconiza o fim da pandemia por imunização natural. Nessa linha, estima-se que, depois de infectados 60% do “rebanho” (o rebanho brasileiro tem 210 milhões de indivíduos), 126 milhões seria o provável número de infectados para atingir a tal imunidade. Nesse meio tempo os mais velhos, os que têm comorbidade relacionada à COVID, os fracos, integrarão a maioria dos mortos. A taxa de morbidade varia de país para país, de estado para estado. Os sobreviventes ficarão à espera da próxima praga. Seria, então, a velha lei da Seleção Natural de Darwin, a sobrevivência do mais apto? Pandemias não são nenhuma novidade, nos últimos trezentos anos as mais famosas repetem-se, curiosamente, de cem em cem anos, a saber, 1720, peste negra; 1820, cólera; 1920, influenza; 2020, COVID 19. E, de entremez, as epidemias de varíola, febre amarela, sarampo, ebola e muitas outras. Mas nada se compara à famosa peste negra ou bubônica do século XIV, causada pelo bacilo Yersinia, oriundo da China, e que chegou à Europa a bordo dos navios mercantes e teve sua porta de entrada em Gênova e Veneza. Varreu um terço da população europeia de 1347 a 1351, cerca de 70 a 150 milhões de vítimas, um número fantástico considerando-se a população mundial de então. Em 1353, Giovane Boccaccio, escreve o famoso Decamerão, obra do início do renascimento italiano, que marca a ruptura com a moral medieval e inicia um realismo distanciado da mítica cristã na literatura. Na novela famosa, dez jovens, sete mulheres e três homens, fugindo da peste reinante na cidade de Florença, uma das mais ricas e requintadas de então, refugiam-se em uma propriedade rural e lá, em completo isolamento do mundo exterior, passam os dias a preparar e contar as cem histórias de que consta o livro. As lives de então. A licenciosidade que apimenta a obra não advém do comportamento dos jovens, aliás, corretíssimo, mas das narrativas que apresentam. Narrativas famosas que inspiraram outros livros, filmes e peças teatrais. Por esta obra, sabemos que há exatos 873 anos já se praticava o isolamento social como medida para evitar o contágio; pinturas da época também mostram pessoas com máscaras com bicos de pássaros e roupas pesadas. No decálogo de medidas contra a Influenza, de 1820, atualíssimo, consta a lavagens de mãos, o isolamento social e a cobertura do rosto com máscaras ou lenços. Ou seja, tudo como dantes no Quartel de Abrantes. As duas correntes, a do solta pra imunizar e a do isola pra preservar, continuam a se digladiar e nós, no meio, perplexos, sem saber se saímos ou ficamos. Antibióticos de última geração, medicamentos milagrosos, higiene de viagem espacial, diminuem, mas não cessam a mortandade. Creio firmemente que a Terra é chata, paciente, mas reimosa, e que de tempos em tempos sacode os incômodos carrapatos que a poluem e, assim, faz a sua higiene. Depois de um tanto de limpeza de ar e águas, volta a hibernar. Esperemos, pois, a mudança do humor de Geia.cerescfernandes@gmail