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Academia Maranhense de Letras

Sálvio Dino

Cadeira 32


O Castelo de pedras preciosas

26 de dezembro de 2016

Passamos e não voltamos mais, por que? Porque atrás de nós vêm outros, como atrás das aguas outras águas passam e se perdem nas dobras do tempo. Arrisco-me: é a renovação da natureza pelas escrituras sagradas.

Há quem diga: e para definir esse fenômeno sucessivo, é que vieram os filhos, os netos, bisnetos, formadores da nossa árvore genealógica. Assim, ó nosso destino, gostando. É de Humberto de campos essa tirada: “Deus também fez o mundo defeituosamente e, no entanto, mostrou-se contente da sua obra”.

Esse nosso DNA (dele e meu), com uma palpável variante: ele deveria ocupar postos públicos mais importantes: deputado federal, governador do Estado, senador e prefeito da capital. E, eu, não passei de vereador (SL), deputado estadual e prefeito do interior. Fora dos mandatos populares, eu brincava: “ Meu chefe, cuidado. Lá no sertão tem dizer mui sábio, “casa de político sem mandato cria capim na porta e cobra no caminho”, e, ele sorria…

As águas passando pela ponte do tempo! No cair e levantar, dei com as costas na casa das Letras Literárias. Ô coisa danada de boa! Tem o sabor da canção do poeta/sertanejo Luiz Gonzaga: “Um xodó pra mim /qui alegra meu viver”. Sim. Carregou de energia balsâmica das baterias de meu sol outonal.

E, ele pra lá, e eu pra cá nos longes existenciais. Certo dia em suas caminhadas eleitorais veio parar, aqui, em minha casa, na querida João Lisboa. Era uma manhã ensolarada de verão tocantino. Tome conversa. La pras tantas, passou a desabafar… Falou em ingratidões, desencantos. De repente sacou: “Em política muitas vezes o favor pessoal consegue mais votos que as obras. Mas é preciso se fazer o bem sem esperar recompensas”. Segurei seu braço direito, dizendo que estava sendo injusto com ele próprio, pois todo jamais deixou de reconhecer seu espírito público, sua incansável vontade de bem servir. Então passei a citar três marcantes momentos em nossa vida pública ainda bem vivos em minha memória:

1º – Como deputado pedi a construção do “Graça Aranha” e o governador prontamente mandou construir a Unidade de Ensino que, hoje, é uma das belas de Imperatriz.

2º – São Luís ganhou um dos melhores estádios do Nordeste, mercê da sensibilidade sócio- esportiva governamental. Por força de um projeto de lei, de minha autoria passou-se a chama-lo de O Castelão.

3º – O general – presidente fora convidado a participar da inauguração da Ponte “Bandeira Tribuzzi”. Não veio. Para ele tal nomes se constituía uma afronta à revolução de 64: Só viria se mudassem tal nome. O governador não arredou o pé. O homenageado: Bandeira, orgulho da intelectualidade maranhense. O povo aplaudiu tão nobre manifestação de coragem cívica e democrática. Lá estava eu, ao seu lado. Jamais deixei de curtir tão histórico momento.

* * *

Nos longes, as duas pontas do lenço que sempre nos uniu: respeito e amizade jamais foram desatadas…. Agora, quanta tristeza! Tomo conhecimento de sua grande viagem, sem retorno. Para alguns, virou castelo, sob areia. Para outros e mais outros, continua sendo um castelo de pedras preciosas.

Meu caro João Castelo Ribeiro Gonçalves, você, grande guerreiro da luz, jamais deixará de viver, entre nós, É como afirma Guimarães Risas: os bons não morrem, simplesmente desencarnam.

SALVIO DINO