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Academia Maranhense de Letras

Sálvio Dino

Cadeira 32


O “Batalha” do Amarante/Sitio Novo

18 de agosto de 2015

Ao prezado amigo

Dr. Tarciano Gomes

As evidências são transparentes e palpáveis como as manhãs ensolaradas do verão sertanejo. Alguns historiadores discordam disto… disso… daquilo, o que comprova como é movediço o terreno por onde se aventuram todos aqueles que aceitam o desafio de desvendar…. descobrir, os mistérios, as lendas, os mitos, desta ou daquela cidade.

Como se sabe, a penetração territorial do sul maranhense começou com a pisada do boi, tangido pelos sertanistas, vindos dos longes baianos e desaparecidos nas dobras do tempo. Eles foram chegando…levantando currais…semeando fazendas, rasgando chãos, de dentro. E após atravessarem a ribeira d’Parnaíba, arrancharam, arriaram suas “borocas” e ocuparam e povoaram os fecundos Pastos Bons. Daí nasceu o nosso histórico CICLO DO GADO, eixo duma época, onde os bilros bovinos, com as destreza e ousadia, dos homens de chapéu de couro passaram a viver numa autêntica Canaã (a terra prometida).

Nesse formoso e perfumado cenário silvestre, o vaqueiro amarrou o cabresto de seu cavalo na porteira grande e, fez o que Deus mandou: habitar e civilizar os sertões d’dentro.

Vamos em frente!

Esta não é uma narrativa feita nos conformes oficiais e, sim, à luz de informações factuais, dados orais, memórias pessoais e escritos guardados no fundo de baús. Foram, sim, pacientemente colhidos visando trazer ao conhecimento das novas gerações – UM FATO HISTÓRICO, de alta valia no processo desenvolvimentista de uma região esquecida. “Costumamo-nos todos com a afirmativa de que o Brasil é um país sem memória”. (Carlos E. Novaes)

Nesse formoso e perfumado cenário silvestre, o vaqueiro amarrou o cabresto de seu cavalo na porteira grande e, fez o que Deus mandou: habitar e civilizar os , sertões, d’dentro.

Com apoio em historiadores telúricos, de peso sinalizamos: nos idos que sumiram nas madrugadas tempo, quem viajava na estrada, entre Imperatriz e o velho Grajaú, passava pelo fundo de grande Baixão, e via, vastas campinas, onde figuravam grandes morros e serras. “Destas, as mais altas têm os cumes cobertos de capim, parecendo pedaços do campo levados para lá a fim de embelezarem a fisionomia feia da paragem. O Baixão imitando o mar vermelho bifurca-se e suas duas pontas entram em terras altas com descidas difíceis. Em cada uma deflui um riacho, originado de olhos d’água, sombreados por buritizeiros, os quais brotam, na encosta, no ponto terminal da fenda. De longe em longe, grandes, formosas árvores, sucupiras, amarela e roxa, faveiras de várias espécies, sendo mais frondosas a de “bolotas” barbatimão, bacuri, pequi, puçá, tingui, Gonçalo-Aves, pau-da-terra, capitão do mato, samambaia e, noutro tempo, mangabeiras que a extração do leite matou. Dão enfeites desses campos. Nesse mesmo lado oriental do Baixão e ladeando a ponta meridional dele é a serra designada pelo substantivo – DESORDEM! (PC).

Na verdade, essa história, toda ela, é marcada de sangue, pecado, vida e morte e, por que não dizer, também, de fundas reflexões, pois nos leva à porta de entrada do mundo de conquista, povoamento e crescimento nos tempos coloniais. É um pedaço da nossa História, contada de um jeito que você, meu caro leitor(a), nunca viu e, se viu não quis dar a menor atenção. Lendo-a, abisma-se, encanta-se, revolta-se, não acredita, acha impossível, mas, é verdadeira como a luz do sol. É um desdobrar de momentos sanguinolentos, que a gente não se esquece, nunca mais.

“O NOME DESORDEM dado à serra que se alteia entre a nascente primordial do Rio Pindaré e as vertentes do Rio Santana, afluente do Grajaú, é a eternização da lembrança do grande destroço que a população primitiva infligiu na conquistadora, no verão de 1813. (Parsondas de Carvalho – Do Gurupi ao Balsas).

(…) Poderosa bandeira veio de Pastos Bons. Em 27 de junho de 1813 a Bandeira pousou na beira do mato do riacho Falcão, lado oriental da serra e, à noite, os cruzadas cantaram alto rezas a São Felix, o protetor das cruzadas. Não tardou. Nas lufadas da brisa chegaram aos ouvidos dos cruzados, sons de inúbias e cantos guerreiros. Na manhã seguinte, 28 de junho, véspera do dia de São Padro, a Bandeira, tendo achado a subida, galgou o cume da serra, levando a munição por possantes cavalos. Em cima, na esplanada encontrou os Timbiras. Estavam para morrer defendendo liberdade, lares, filhos e velhos. A fumaça da pólvora turvou a projéteis. (…) passando pelos mortos e feridos e avançandos sempre, os Timbiras entraram em meios dos bandeirantes e se apoderaram das munições. Igualados em armas os cruzados sucumbiram…Mortos a tacape ficaram 86 bandeirantes em cima da serra. Na fuga muitos despenharam-se por atalhos verticais. Os que escaparam levaram a Pastos Bons a notícia. E, por SERRA DA DESORDEM ficou nomeada… (Parsondas de Carvalho).

Mas, no estouro do massacre, ladeira abaixo, muitos índios e pastoboenses brigando…se matando…até um grande riacho situado num dos sopés da Serra. No dizer do sábio engenheiro – Antonio Dias. (encarregado da Comissão de Estudos do Sertão Maranhense, no governo do Dr. Urbano Santos), essa Serra, é a mesma “Serra da Cinta que borda o Tocantins, nada mais sendo que a sua continuação, para além do Rio Grajaú.

Pois bem. Esse riacho, em 29 de junho de 1813 (Dia de São Pedro), foi palco de doloroso massacre humano e por isso ficou batizado de: “O BATALHA”, saindo vitorioso o invencível cacique – O Governador, por mais 40 anos o “Manda Chuva” dos velhos sertões grajauenses…

E, as águas passaram pela ponte do tempo!

O histórico – BATALHA que corria entre frondosas árvores frutíferas nativas, mais tarde, marco divisor entre os municípios de Amarante e Sítio Novo, passou a viver numa grande noite, a noite do esquecimento e, hoje, por um sopro governamental está, sim senhor, saindo desse estado de abandono para transformar a noite negra que se instalara em seu leito seco, em dias de sol. Sim, radiosos dias, em especial pra os que vivem (sempre viveram) na firme esperança de melhor qualidade de vida, compatível com a dignidade humana e cristã. Como assim? Quem viver verá!