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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Novo ano de novo

31 de dezembro de 2017

Uma carta do senador Publius Lentulus ao Imperador Tibério César, descrevendo as características de Jesus; a mensagem de Natal, proferida pela Rainha Elizabeth II, que relembrou um pequeno milagre de Natal quando, em meio à guerra, soldados alemães e britânicos fizeram uma trégua para celebrar o nascimento de Cristo, entoando a famosa canção “Noite Feliz”; e um texto lido por um jovem acerca do caráter subversivo de Jesus – que, de fato, deixou seus conterrâneos e os romanos estupefatos com atitudes não convencionais, que foram contra a tradição da sociedade da época, cuja repercussão foi tão marcante que, após dois milênios, circularam nos últimos dias nas mídias sociais. Cada um a seu modo nos reflete que o Deus que se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade – como descreve São João – estabeleceu uma nova lógica de vida, pautada no amor, na solidariedade, na compaixão, mas, sobretudo, com justiça e igualdade, exemplo a ser seguido em cada dia de nossa breve existência.

Especialmente no próximo domingo, que é o último dia do ano, se faz necessário repensar se de fato o legado do Filho de Deus tem pautado nossa vida aqui na terra. Uma rápida olhada nos noticiários nacionais e nos deparamos com o ano de 2017, tão peculiar. Dia sim, dia não, a corrupção foi a tônica das manchetes. No Brasil, a profusão de políticos famosos atrás das grades, o avanço do desemprego, o julgamento de temas polêmicos pelo Supremo Tribunal Federal, como o aborto e o direito dos transexuais, a reforma trabalhista e a adiada reforma da previdência tiraram o sono de muitas pessoas. No cenário internacional, o acirramento dos ânimos entre israelenses e palestinos, quando da notória declaração do presidente americano Donald Trump, que reconheceu Jerusalém como a capital de Israel, o problema da guerra na Síria, crises humanitárias no Iêmen, e a morte de um homem de grande estatura, Zigmunt Bauman. Enfim, destaquei apenas alguns poucos episódios de nossa história recente, como pano de fundo da história.

O pintor veneziano Giorgione é autor de uma tela intrigante chamada “A tempestade”. Nela, em primeiro plano, duas pessoas estão como se vivendo alheios à tempestade que não demorará a irromper. Ao fundo da tela, a cor do céu denuncia que logo o clima bucólico, que envolve os personagens retratados, irá mudar. Mas eles ainda não sabem disso. A tela é uma grande metáfora de nossas próprias vidas. Como não sabemos o que virá amanhã, vivemos hoje na (ilusória) sensação de que há um relativo controle do que virá.

No livro “Vozes anoitecidas” do escritor Mia Couto, um conto em específico brinca com o passar do tempo de uma forma singular. Trata-se de “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”. Cada pedaço do conto é uma noite. A cada noite, uma pequena revelação ao leitor sobre o drama do personagem-título e da oriental Mississe. E ainda sobre o tempo, vale recordar nosso Mário Quintana que declamou em versos: Se me fosse dado um dia, outra oportunidade,/ eu nem olhava o relógio/ Seguiria sempre em frente e iria/ jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas/Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo… (…)

A tela, o conto e o poema são recortes de lembranças acerca do mistério do tempo que corre célere. Mas o que a passagem dos minutos, das horas, dos dias e anos tem em comum com o legado de Jesus Cristo? Tudo, para aqueles que nele creem e têm a esperança de uma vida eterna, em sua companhia constante na vida terrena. Afinal, foi Ele mesmo quem disse: “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Evangelho de João, capítulo 16 e versículo 33).

A presença diária de Cristo em nossas vidas é um alento. Faz-nos mais humildes e responsáveis por esse dom precioso que recebemos. Tudo fez formoso em seu tempo, atesta o Rei Salomão no livro de Eclesiastes. A frase é de uma delicadeza e encerra em si mesma uma grande verdade. Nós, seres limitados e finitos, podemos contar sempre com a benfazeja mão divina a guiar nossos caminhos que sabe o tempo certo para cada coisa. Que em 2018, possamos nos lembrar dessa dádiva.

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA