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Academia Maranhense de Letras

Sebastião Moreira Duarte

Cadeira 01


Nordeste, Sertões

21 de agosto de 2015

– Seu Zé, quer que eu passe água no para-brisa?

A fala cantada me traz de volta um tempo e um mundo que não são mais os meus. A essa distância – para lá de 800 quilômetros corridos, da madrugada até a estas horas da tarde – muita coisa me faz amostra que o Maranhão ficou para trás, no estirão da estrada.

Aos poucos perdeu-se aquele verde constante, entra mês, sai mês, com o qual me acostumei há um bom número de décadas, no Maranhão. Terra quase toda ainda coberta de vegetação. Aqui e ali a ameaça de chuva, inesperada a estas alturas do ano que acelera em galope.

Agora é o meio do mapa do Piauí, o bravo Piauí que me acolheu por mais de dois anos, nos longínquos anos 60. O calor se intensifica. As matas começam a sovinar o verde. Não poucas crateras ao longo do caminho exibem cortes e barreiras feitas pelos homens, valas vermelhas abertas às gengivas da erosão, que devora a terra como formigueiros descomunais. Nuvens esparsas e urubus tranquilos plainam sobre nossas cabeças.

“Nordeste? Nordestes. Sertão. Sertões. Não os de Euclides da Cunha, é certo. Sertões, neste outro século, entupidos de antenas parabólicas, celulares, internetes, etc..”

Subo serras, desço serras lentamente. Muralhas de pedras de milhões de anos desafiam-me como esfinges. Mas eu não sou Édipo nem arqueólogo. A mim me preocupam as pedras no meio do caminho, não as do Drummond, mas o grosso pedregulho, o pedregulho real que uma vez quebrou-me as molas do carro, quando eu descia de Picos a Petrolina.

Agora, não. Agora o asfalto me permite correr além dos limites, numa reta que parece não ter fim, e que, quando menos espero, já me eleva à Serra do Araripe, araripinas, cabrobós, exus, jatobás, bodocós. Um vento frio parece negar qualquer ideia de seca e sertão estorricado. Crato, Juazeiro, Barbalha, Missão Velha, Milagres: nomes que “impõem por espontaneidade” a religião, como ouvi uma vez de um pregador de santas missões aos romeiros do Padre Cícero.

Mas a paisagem telúrica não demora: familiar, grudada pela planta dos pés à alma de minha meninice. “Pleno Nordeste. Sol a pino” – eu vou recitando o Olegário Mariano da velha antologia escolar (desculpem, eu venho de um tempo em que os livros escolares traziam poesia, e não zoeira de forrópios).

Os tempos aqui não são mais aqueles que o poeta recorda: “A vida / sem sonho como uma árvore sem fronde”, onde “a criatura de Deus, fraca e vencida, / Leva o destino sem saber para onde”. Já não mais. O homem desta terra ainda “… ergue os olhos pedindo a água escondida / Nalguma nuvem que no céu se esconde”, mas agora, de GPS à mão, segue “os bandos loucos de avoantes forasteiras” e mapeia “o ar cansado e infeliz das carnaubeiras”.

– Este ano, não caiu uma única chuva que fizesse água em córrego – diz-me um primo, velho vaqueiro que vem, / pelos atalhos / tangendo as reses pelos currais”, e despacha dos chiqueiros os “tristes bodes patriarcais” (e agora o poema é recitado pelo vozeirão do Ascenso Ferreira de meu colégio recifense).

Aqui, onde “os horizontes [são] cada vez mais limpos / … / o sol é vermelho como um tição,” a vida é inclemente, impiedosa, dura e dura. Modernizou-se a pobreza.

Nordeste? Nordestes, Sertão. Sertões. Não os de Euclides da Cunha, é certo. Sertões, neste outro século, entupidos de antenas parabólicas, celulares, internetes, etc..

A ausência do verde, o desgalhado das árvores, a pele crestada dessa gente certifica que este é, de fato, o outro Nordeste, diferente, por exemplo, do Maranhão, onde a terra é generosa, o povo é bom, brioso e amante (como todo mundo gostaria de ser) das horas livres e dos dias alegres.

O grande Maranhão, que disfarça a própria miséria no verde intenso de suas matas e na intensa alegria de sua gente…

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