Blog

Academia Maranhense de Letras

Lino Moreira

Cadeira 08


Necropresidente

23 de dezembro de 2020

Há uma característica dos ser humano que me espanta, mal me levanto da cama pela manhã. É a capacidade de acreditar em qualquer conspiração imaginária vendida, ou alugada, como verdade autoevidente. A trama pode ser de autoria de seres terrestres, os chineses, por exemplo. Eles seriam capazes de criar vírus, como o corona, com a capacidade de infectar seres humanos, exceto os próprios chineses (neste caso estes seriam não humanos), e chegar perto de destruir a economia mundial, menos a da China. Diria um vírus adolescente: – “Aquele cara é americano. Vai fundo nele”.

Não importa que no mundo real, o corona tenha afetado tanto o povo chinês, ao matar e deixar sequelas em muita gente, quanto a economia. Assim, se fossem mesmo como são vistos por uns bobos e internet, os chineses formariam um povo de cidadãos com cérebros do tamanho de uma ervilha, desprovidos da capacidade de saber de seus próprios interesses. A fim de prejudicar os adversários, eles se prejudicariam antes.

Mas a conspiração pode ser feita por extraterrestres. O leitor vai se lembrar da abdução de Elba Ramalho. Após uma noite de muita alegria numa festinha íntima, ela foi levada numa nave esplendorosa por aqueles seres. Foi estudada e devolvida à Terra, não sem antes receber a informação sobre a futura eleição de Jair Bolsonaro, que seria sabotado pela imprensa, Congresso Nacional, STF, a Escola de Samba Unidos do Cabuçu, Flamengo, a França, os esquimós do Alasca, a Venezuela, a Argentina, a Alemanha e, principalmente, os comunistas. Todo mundo, o que me faz desconfiar que todo mundo não está errado em não gostar de seu governo.

Os extraterrestres esqueceram de dar a Elba as características morais do futuro presidente, coisa fácil de saber hoje, pois é de conhecimento de qualquer terráqueo. Se a maior parte do povo brasileiro tivesse tido conhecimento dessa falta de qualidades, quem sabe poderíamos ter evitado a vergonha pela qual passamos hoje no mundo todo.

O primeiro traço da personalidade do presidente da República, sabemos, é a indiferença pelo sofrimento alheio. Estão morrendo milhares de pessoas todo dia no Brasil. “- E daí? Todo mundo morre um dia”. Dizer isto equivale justificação de assassinatos em série. “-Meu vizinho foi assassinado por bandidos”. “- E daí?”. Ele ia morrer mesmo”.

Esse descaso com a dor e essa insensibilidade com o sofrimento das pessoas é um traço da personalidade psicopata. Ele só se importa(?) com seu clã. Quantos lhe ajudaram na eleição a presidente da República e, mesmo assim, foram chutados do governo da forma mais vil. Dele pode se dizer o que Leonel Brizola dizia de Lula: “É capaz de pisar no pescoço da própria mãe, em nome de seus interesses”. Sim, eu conheço a natureza feroz da luta política. Todavia, em tudo deve haver um limite moral. Vale-tudo não vale.

O linguajar chulo, grosseiro, desrespeitoso, racista, homofóbico, o ódio à cultura, a ideia de resolver tudo na porrada e por qualquer meio, legal ou não, o elogio da ditadura e da tortura, o desrespeito às instituições democráticas, o espírito ditatorial, a justificação da violência policial contra pobres e pretos, a fascinação pela morte alheia, tornando-o um necropresidente, o qualifica como o mais perigoso presidente da história do Brasil.

Por fim, a sabotagem à vacinação em massa do povo brasileiro contra o vírus evidencia o quanto de prazer ele tira da do natural medo dos brasileiros à ameaça do coronavírus.

Lino Raposo Moreira

PhD, economista, membro da Academia Maranhense de Letras