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Academia Maranhense de Letras

Ubiratan Teixeira

Cadeira ubiratan-teixeira


Na linha do Crescei e Multiplicai-vos

2 de maio de 2014

Tia Zuza é uma parideira de mão cheia que entrou para meu rol de curtição pelas mãos de uma fraterna amiga e alguns litros de caipirinha. Tia Zuza morava bem ali na Trizidela da Maioba, num esplêndido casebre de dois quartos e dezoito filhos, meia dúzia de mangueiras seculares, um centenário poço de pedras, algumas rãs, e aquele lírico juçaral bordejando um incestuoso córrego de alcoviteiras histórias. Ao parir seu décimo oitavo eu já transitava por lá; e melancólica ela me confessou que estava decidida parar naquela barrigada: “É que os pais das crianças, professor, são uns desalmados que só querem raçar e tiram o cu do ponto na hora de comprar um pacote de leite: criar junto com a gente, nem pensar!!! E se a gente fala para os médicos que assistem na hora do parto em fazer castração eles dão a maior rebanada.”

– E como vai ser, tia, para evitar, então?

– Vou tentar resistir na hora que vier aquele desejo capeta…

No fim do ano passado, resolvi dar uma bordejada pelo sítio de Tia Zuza. Tudo mudado: o riacho entulhado de lixo, o mangueiral fenecendo, o juçaral virando monturo. Bateu-me um sofrimento doloroso ao me lembrar do modelo de Éden que o sítio foi vinte anos passados: havíamos envelhecido. Não um envelhecimento saudável e necessário, mas aquele envelhecimento doentio – até Wanderléia a mais nova de todas hoje acima das dez décadas de vida ficou entanguida e empalamada exibindo uma precocidade fora dos parâmetros naturais.

– Parou mesmo nessa aí, não tia?

– E tinha outro jeito? Logo o pai dela foi destripado naquele mesmo ano em que ela nasceu numa arruaça de bumba meu boi que ele se meteu deixando a coitada órfã de verdade.

E ficamos trocando figurinhas sobre um montão de coisas; sonhos, realidades, uns abstratos de coisas que apesar de arruinado o ambiente sugere. Íamos assim por nossas evocações sangrando pelos poros, quando ela ficou séria e fez a pergunta:”- Fala uma coisa, professor: é verdade que Dona Dilma vai proibir mesmo da gente parir?”

– Quem te falou isso, Tia? Isso já aconteceu lá pelas chinas, que estava derramando amarelinho pelo ladrão. Aqui com o Lula foi de modo contrário; ele mandou foi que o povão copulasse adoidadoe espia só no que deu? Nessa tal de bolsa família que só serviu para mais fornicação.

E foi um pouco difícil de explicar que ninguém ia pensar nesse tal tipo de coisa em nosso país, a única diversão que pobre ainda tinha.

Aconteceu que por brincadeira, vendo a meninada enxameando algazarrenta na disputa pelo punhado de farofa de sururu que eu havia levado, falei sobre a providência, tempos atrás na terra dos aiatolás dessa gente de castrar os machos que produzissem além de três crias na mesma mulher e que na China de Mao, era premiada a família que não fosse além de quatro rebentos. E isso deve ter criado calo no juízo de tia Zuza, que para ela tanto Mao-Tse-Tung como o aiatolá Khomeini não passavam do anticristo; pois privar as mulheres daquele saboroso ato cristão do “crescei e multiplicai-vos” só sendo um paranormal partidário das forças demoníacas. E para ela, acrescente-se, mulher de verdade só se começa a conhecer é na cama do prazer da cópula e consequentemente no gozo da parição.

“É lindo, professor, falou certa vez em êxtase; a gente sentindo que vai saindo lá de dento de nosso corpo aquele fiapinho de vida que nem a gente, gerado de uma gosma nojenta – só mesmo por um milagre de Deus, que a vivente nenhum deve ser negado esse direito.”

Mas de repente, mesmo sexagenária, Tia Zuza revelou que estava pensando seriamente em retornar ao seu desiderato. Anunciou que ia arranjar um moleque novo e voltar a parir, “que material é o que não me falta”; e desafia qualquer gênero de poder sobrenatural que tentar dá nó nas suas trompas ou macular seus ovários: “Ainda menstruo, professor: não é que eu seja descendente daquele povo bíblico que vivia seiscentos, setecentos anos, mas meus ancestrais timbiras procriavam quase centenários.”

– Vou, professor; vou voltar a engravidare a Wandequinha que me perdoe por não deixar ela na caçulice. Mas desejo de coito ainda tenho bastante e conheço muito nigrinho novo aí pelas beradas que tá precisando aprender o ofício de cama com quem tem tirocínio: pra dar e vender.

Não sei no que deu. Mas torci para que tia Zuza se saísse bem de sua empreitada: que ela voltasse a trafegar pênis e concebesse. Que de min sempre considerei muita falta de respeito pela criatura humana, essa mania dos mandatários do Poder Público ficar de vez em quando querendo manipular com a licença sexual de seus governados, privando sua gente de um raro prazer.

E depois, em lugar de gravar a cópula, não desagravar outros itens de alta necessidade para o cidadão como educação, saúde, alimentação, lazer, transporte, que a lista é quilométrica.

Viver é bom: multiplicar a vida muito melhor.