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Academia Maranhense de Letras

Ubiratan Teixeira

Cadeira ubiratan-teixeira


Na Guerra do Sexo

18 de abril de 2014

Hoje eu deveria estar oferecendo ao leitor uma crônica tecida pela fé cristã, falando de piedosas breguices católicas, revendo nossos calvários e concluindo o texto com alguma citação bíblica.

Mas o país está com febre; uma febre tinhosa que pode virar terçã malignaletal. E enquanto isso não acontece aproveito então esse pouco de saúde que nos resta para fazer uma reflexão pertinente sobre um parágrafo de nossa história e que tem muito que ver com nossa crença católica; e acredite o leitor que não me considero nem chauvinista militante nem machista preconceituoso -só que fui cruelmente marcado por uma severa tradição cultural onde o macho era integralmente educado para dominar a fêmea devendo mantê-la numa espécie de altar/prisão.

Mas acontece que a mulher, esperta e ladina como sempre foi desde nossa mãe Eva,apenas fingia ser esse docinho de coco de submissão como aparentemente se exibia; donde se conclui…

E havia a parte teatral.O ritual; sobretudo em público. O mancebo exibindo uma galanteria sem limites não importasse que no recesso do lar o clima fosse aquele de tourada;a donzela sodomizada com crueldade em nome de uma moral de padrão irracional exibindo-se pundonorosa. Os “cavalheiros” cedendo seu lugar nos coletivos para as madames, levantando seus chapéus nas passagens pelas ruas enquanto elas sempre de vista baixa em público e se mantendo fiel ao himeneu até a cerimônia do matrimônio.

Aí veio o viraguismo e a coisa foi se destrambelhando. Continuar com o ritual cumulando a mulher com os cuidados de faixada ou abrir o jogo e passar a trata-la de igual para igual?

Quem foi adestrado na velha escola começou a ficar incomodado diante da perspectiva desse nivelamento. O varão embatucou diante de uma donzela de sovaco cabeludo falando palavrão, cuspindo no chão. O despojamento foi acontecendo, sofrido e cruel; no soco e na marra continua se aprimorando – já imaginaram o que seria da mulher tentar jogar futebol nos meados do século passado?

Dias destes, por exemplo, no Mercado Central (que ainda existe a tal instituição), eu enfrentava uma fila de meter medo pra comprar um saquinho de juçara quando uma buchuda se enfiou no começo da fila alegando sua condição de gestante.

Armei o circo e parti para o teste. Primeiro para sentir até que ponto iria minha capacidade de violentação dos meus próprios princípios (apesar dos pesares continuo um cavalheiro de fino trato); depois para sentir a reação dos circunstantes e do próprio objeto do meu experimento.

Estrilei. Abri o esporro. Questionei sobre quemodos eram aquele de chegar atropelando meus direitos de octogenário. Desde quando prenhez era doença ou incapacidade física?Desde quando o ato de engravidar conferia estatuto de primazia?” – Usufruiu do prazer ou não usufruiu no ato da cópula? Foi ao orgasmo ou não foi? Então…satisfações iguais tanto na cama como na fila da juçara. Dê licença, madame; o fim da fila é depois daquele cidadão de vermelho.”

Nos antigamente das mesuras e dos salamaleques eu não dava só a minha vez como até iria procurar um tamborete para a madame ficar mais confortável. Mas não foi eu que arranquei o sutiã em público e bradei o grito de liberdade – o que lamento pois continuo achando que o sexo feminino merece um tratamento carinhoso, delicado, menos dente-por-dente. Mesmo por que não sou de estar cobrando posturas e gestos, de estar patrulhando ou pegando no pé de quem quer que seja; mas fico matutando que Betty Friedeman é essa que parte para a cana de braço com o macho em algumas situações, mas aceita feminilmenteregalias de fachada e não abre mão de alguns benefícios sociais como direito a pensão alimentícia e outros privilégios burguês/capitalista quando se separa do parceiro.

Faz poucos dias uma dileta amiga aniversariou. Dessas de sovacos e pernas peludos, aquela inhaca cruel de corpo mal lavado, palavras rudes, gestos fortes, detalhes que no meu humano entender nada tem a ver com esse nivelamento de direitos. Boa parceira de saudáveis ideias que todos os anos, pelo natalício mandava-lhe um mimo de lembrança só que havia mudado o gênero das lembranças diante da nova postura da criatura: em lugar de coisas adequadas para uma senhorita passei a levar charutos cubanos e garrafas de cachaça. Este ano decidi desafiá-la: mandei uma rosa – uma única rosa, cor de rosa com um cartão onde escrevi uma delicada estrofe de Guerra Junqueiro e fiquei esperando pela porrada. Às dez da manhã o telefone toca. Foi um dos mais ternos e delicados telefonemas que um homem já deve ter recebido em sua vida; um hino de amor e ternura, uma delicada declaração de amor fraterno de uma criatura dócil e gentilmente feminina.

Foi algo de bom e lindo. Era uma mulher de verdade do outro lado da linha. Com um toque de meiguice e sensualidade, sabor da fêmea que vai retornando ao aconchego de nossos corações.