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Academia Maranhense de Letras

Ivan Sarney

Cadeira 17


Muito além dos mortais que somos

2 de agosto de 2015

Cada dia é uma vida nova e nos convida a novos sonhos e novas esperanças, levando-nos à compreensão de que somos seres emergentes, propensos a nos descobrir, a nos desenvolver como pessoas, a amar, a buscar a nossa transcendência, nos elevando para a compreensão da energia difusa e una que é Deus, “harmonia entre as desarmonias da criação”… no sentimento de Rui Barbosa.

Os dias que se sucedem vão registrando os referenciais de nossa vida presente, pretérita e futura, dando-nos a oportunidade de repartir com outros, um pouco da luz que conseguimos absorver, em nossa trajetória pessoal e humana. Para onde vão nossos passos? Para onde levamos nosso amor, nosso ódio, nosso perdão, nossa iniquidade? Para que servem os instantes de êxtase, de perplexidade, de encanto e prazer, em que nosso corpo e nossa alma mergulham, ao longo de nossa existência temporal?

Estamos a serviço de quem, a serviço de quê, no curto tempo de nossa permanência na face da Terra? Estamos a serviço da vida, talvez. A serviço de um aprimoramento espiritual, de um aprimoramento humano, dada a essência de nossa espécie evolutiva. Estamos a serviço do ser e do tempo, a serviço de Deus.

Nossos ancestrais não amaram, certamente, como amamos, por que não tinham o acervo de conhecimento de que hoje dispomos sobre nós mesmos, sobre o amor e sua complexidade. Não tinham a compreensão que temos hoje, sobre as forças cósmicas do universo em movimento, com seus campos magnéticos, suas emanações de luz, suas distâncias e proximidades, suas forças em constantes movimentos, que a tudo e a todos nos fazem vivos.

A cidade em que nascemos tem esse dom de ser receptáculo de todo esse código ancestral

Dessas lições cósmicas, talvez a mais permanente, a mais profunda e mais essencialmente útil para nós, seja a compreensão de que tudo no universo é movimento e que, a cada milésimo de segundos, os cenários da ordem universal mudam e não se repetem nunca, da mesma maneira.

Vivemos num mundo de exclusividades, de unicidades paisagísticas, que se transfere para todas as espécies vivas. Nenhum ser vivo é igual a outro ser vivo, ainda que da mesma espécie e gêmeos, de quaisquer tipos.

Somos seres únicos no mundo, e somente isso já nos dá uma exata dimensão de nossa importância pessoal, da relevância de nossa vida, para a compreensão de outras vidas, para a celebração da supremacia humana, sobre todas as outras criaturas vivas, que Deus colocou na face da Terra. Além disso, de todas as criações Divinas, o homem é a única que pode refletir, raciocinar, emitir conceitos, formular teorias, conhecer intelectualmente, qualquer aspecto de uma realidade. Somos, por isso mesmo, a mais bela criação Divina, porque podemos emitir juízo crítico sobre todas as outras, julgando-as como belas, feias, inúteis, úteis, pela exclusiva capacidade intelectual de que somos dotados.

Como é útil poder raciocinar que toda a realidade física, em torno de nós, muda em segundos e que nós, por força dessa mudança, também mudamos sob o aspecto físico, emocional, sentimental, procurando, mesmo sem sabermos, nos adaptar às novas condições do meio e a ele sobreviver, buscando realizar nossa destinação para o amor e para a liberdade.

Muito além de cada um de nós, no entanto, está nossa alma coletiva, um sentimento que não é individual, e que reflete a condição humana como um todo, inclusive com heranças ancestrais de nossos antepassados. Essa alma coletiva traduz anseios, esperanças que muitas vezes nem sabemos que temos, mas que estão latentes em nossos atos, nos atos de nossos semelhantes e que por isso mesmo, nos irmanam.

Por isso mesmo, também, nossa alma coletiva nos transcende, é maior que nós e se projeta por séculos, por gerações, se transformando em códigos genéticos e orais que determinam o caráter, a índole de um povo, com todos os seus usos e costumes.

A cidade em que nascemos tem esse dom de ser receptáculo de todo esse código ancestral, de ser o ponto de referência principal daquela parte nossa que não nos pertence a nós mesmos, por que está irmanada com todas as outras almas, ao longo do tempo, no universo.

Somos seres coletivos, portanto. Nossa vida, não nos pertence isoladamente, egoisticamente. Mas pertence a um acervo de nossa espécie humana, com tudo aquilo que ela tem de grandeza e pequenez. Apenas a cidade é permanente, transcende o tempo, contemplando os séculos, como testemunho vivo de tantos anseios, códigos e tempos que se dobraram, nos calendários finitos dos homens.

Caminho pela cidade, na tarde ainda quente de janeiro. O ano de 97 agora é passado, com todos os fatos que imprimiu em nossas vidas, independente do conceito que deles possamos ter. O que há de real é a tarde, com seu calor, com sua paisagem nostálgica, vista do Largo do Carmo, onde me encontro, e onde a cidade exibe os focos de lixo que o comércio ambulante, o anti-amor, vai despejando pelas ruas, neste início de ano, quando ainda brotam e crescem as esperanças, de uma vida urbana de melhor qualidade, em São Luís.

De que vale a tarde? Inútil paisagem, como nos versos da canção. Amar a cidade é compreender que somos seres coletivos, e que o amor tem faces e cores tão múltiplas quantas são as faces e as cores humanas. É preciso amar a cidade.