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Academia Maranhense de Letras

Lourival Serejo

Cadeira 35


Mora na filosofia

9 de maio de 2019

Ora, fazer horóscopo seria mais fácil.
Descobriu isso quando, algumas vezes, o diretor da redação escalava alguém por perto para aliviar a ansiedade dos que, no dia seguinte, corriam os olhos na página de sempre.
O pacote quinzenal da ANSA, uma agencia italiana, garantia ao matutino uma miscelânea de textos enxutos sobre temas atraentes, incluindo receitas de macarronadas, curiosidades históricas e o indefectível horóscopo.
Quando, algumas vezes, o correio demorava na entrega, tudo podia ficar para depois. Menos a coluna cativa do horóscopo, a mais confiável na mídia impressa local.
Qual era o truque para um bom horóscopo substitutivo do que vinha de Roma? E tinha truque? Tinha, sim.
Havia um mapa de pessoas conhecidas, cada uma com o seu signo. A partir daí soltavam-se as armadilhas suavemente.
Prosaicas insinuações tipo experimente ir hoje ao cinema. Ou evite contato com aquela pessoa invejosa. Não exagere à mesa. Beba bastante agua. E tal.
As previsões e conselhos eram tanto melhores se o astrólogo de araque mantivesse o acompanhamento pessoal, no mínimo, na metade das pessoas com quem convivia sabendo-lhes os signos.
Viciando-se em previsões, logo achou que podia ser comunista. Anos 60, guerra fria, coca cola de Tio Sam, ouro de Moscou, no Brasil um líder aloprado a quem Jorge Amado pregou a alcunha de cavaleiro da esperança. E tal.
Filiou-se ao partidão a cujas promessas se entregou muito apaixonadamente. A paixão é um incêndio invisível. Queima. E o apaixonado ideológico, um paranoico, que se acha o rei dos homens, o pau da bandeira, o dono da foice, o cara que, só ele, sabe onde bate o martelo.
Logo os manda chuva do partido o escalaram para serviços mais confiáveis a agentes provocadores. Craque em xingar militares, em especial os de alto escalão.
Foi quando ouviu de alguém aquela frase de Descartes – penso, logo existo. Ficou encantado. Pensando, pensando, pensando bem, largou o partidão, mesmo sabendo que para os desertores ou dissidentes a pena é de perseguição perpétua.
Olha só o que o Stálin fez com o Trotsky. Perseguiu-o pelo mundo inteiro até que, exilado no México, foi assassinado por um jovem comuna apaixonado, cabeça feita, escalado por Stálin, disseram-lhe, para entrar na história.
O antigo coleguinha dos horóscopos ainda se nutre da perigosa adrenalina em que se viciou, essa de xingar generais.