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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Moby Dick, para uma macroscopia do coronavírus

25 de julho de 2020

Tive a honra de fazer parte do Simpósio sobre Pandemia e Literatura, proposto e coordenado pelo Acadêmico e meu confrade Gilberto Schwartsmann, ao lado do acadêmico Ricardo Cruz. Aquela tarde memorável, sob a devida vênia de nosso presidente Rubens Belfort, contou ainda com a participação de outros componentes da Academia Nacional de Medicina e da Academia Brasileira de Letras.

Tão importantes foram as palestras ali proferidas, que tomo a liberdade de compartilhar o que cada uma das obras reflete destes tempos pandêmicos, a começar por Moby Dick, clássica obra do escritor americano Herman Melville, publicada em 1851. Coube a Schwartsmann atualizar as lições de Moby Dick, na releitura que a torna familiar: a imprevisibilidade da natureza e a impossibilidade que se nos apresenta, quando pensamos que podemos dominá-la completamente. Em tempos de coronavírus, a constatação ainda é a mesma: não passamos de seres frágeis e impotentes ante sua fúria.

Na obra narrada em primeira pessoa pelo marinheiro Ismael, um professor rural de uma família tradicional que se aventura para conhecer a vida “aquosa”, por meio da navegação, Melville retrata o drama pessoal de um homem profundamente fanático e vingativo, capitão Ahab, que comandaria o barco Pequod, no Pacífico, sem pensar nos riscos que correria a tripulação, em busca da lendária baleia branca, um cachalote de nome Moby Dick.

Mas o objetivo não era apenas comercial. O objetivo de sua viagem era outro: a sanha da vitória, da subjugação e da dominação de um ser poderoso e imprevisível que o guiava, que o instigava. A obra, tão atual como nunca, representa a natureza indomável e a luta feroz do homem na tentativa de dominá-la. O capitão Ahab simboliza a impetuosidade humana que, em sua tentativa de lutar contra a natureza, destrói a ambos.

Os tripulantes do Pequod terão trágico fim, à exceção do jovem Ismael. Muitas comparações e inferências foram produzidas nestes mais de cem anos da publicação da obra e, se há um fio condutor, mencionou Schwartsmann, este é o binômio beleza-tragédia que a natureza carrega consigo. Naquele momento, mencionou o mítico Leviatã, que serviria para intitular a obra de Hobbes, e também o monstro do Lago Ness. O confrade seguiu recordando que o próprio mar, cenário das batalhas do capitão, foi um dos grandes inspiradores de Fernando Pessoa: “…Deus ao mar o perigo e o abismo deu/ Mas nele é que espelhou o céu”. A força descomunal da baleia é também vista na obra de Hemingway, por meio dos touros, tema de O Sol Também se Levanta.

Recomendo os filmes Moby Dick, de 1956, em que o ator Gregory Peck dá vida ao atormentado capitão Ahab e, mais recentemente, No coração do mar, de 2015, que conta que Herman Melville teve acesso a Moby Dick, ao ouvir a história do baleeiro Essex. Ambos podem ser encontrados facilmente nas plataformas de streaming.

Schwartsmann também lembrou de tantos outros dramas humanos, a partir dos males advindos das pragas. Mencionou dores e mortes, incluindo a de Arthur Bernardes, um presidente brasileiro; referiu-se a doenças como a tuberculose, retratada em Floradas da Serra, da escritora paulista Dinah Silveira de Queiroz e que, também, vitimaria José de Alencar, que teve, em seu romance Lucíola, a sua vez de fazer referência à febre amarela. Mas foi com ênfase em Moby Dick, que fez transparecer nossa incapacidade de compreender que a natureza, de cujo sistema nós somos apenas uma parte, não pode ser afetada sem que haja sérias consequências, porque o homem é apenas um ilusório dominador.

O coronavírus, que tem dizimado, incalculavelmente, para além dos limites da tripulação do Pequod, pôde ser visto, nas dimensões macroscópicas de Moby Dick, como o inimigo destes dias pandêmicos que temos enfrentado, sob toda ordem de conflitos e embates.