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Academia Maranhense de Letras

Joaquim Itapary

Cadeira 04noticias


Meu primo fescenino

12 de junho de 2014

Cada um tem o parente que merece. Eu tenho um primo, hoje morador do Cachambi, no Rio, que é um dos parentes que mereço. Gosta de literatura e musica clássica, frequenta salas de concertos e teatros do Rio, se dá com poetas, cordelistas, escritores, jornalistas e é um boêmio. Desses boêmios do bem, como se diz daqueles que até levam a mulher para o botequim, mas não põem fêmea dentro da casa e nem botam casa para outra mulher. Salomão é o nome dele. Salomão Jorge. Ponta de rama da frondosa árvore dos Abu Obeid, de Zahlé, Libano. Que nem eu.

Pois bem, outro dia, Salomão passou um mês conosco. Já a nossa cozinheira sabe dos pratos de sua preferência. São de comer não encontradiços no Rio, com facilidade. Ele até vai à feira comigo e ajuda na escolha dos peixes, camarões, sarnambis, jaçanãs e queijos. É disso,de cerveja de malte, que ele gosta. Também me acompanha quando vou à farmácia em busca dos remédios para hipertensão e mau colesterol elevado. Numa dessas vezes eu o ouvi pedir ao balconista, à meia voz, falando por um só canto de boca, a modo dos prisioneiros em fila para o almoço: – Quanto é o Cialis diário? Eo atendente: – Duzentos e trinta reais. E ele:– Me dá uma caixa.

Ai ele pagou e guardou no bolso a caixinha do remédio. Entramos no carro. Então, ele virou-se para mim e perguntou: – Primo, por que você me olhou daquele jeito quando pedi o Cialis? Você não usa? Respondi-lhe: – Quando preciso, não todo dia, claro. Você esquece que já tenho 78?- E eu 70 – respondeu-me o primo Jorge, acrescentando: – Mas eu compro e uso o diário só para manter a ilusão da juventude.

Faz já uns quinze dias, esse cara deu para mandar-me, via internet, suas recomendações de literatura lasciva. Outro dia recebi o texto inteiro de “A carne”, considerado um dos primeiros romances da escola naturalista no Brasil, no qual Júlio Ribeiro, conta-nos a história de uma virgem possuída “pela necessidade orgânica do macho,” conforme explica o autor. Recebi o texto desse belo romance como uma provocação, mas não passei recibo. Agora o primo me escreve: “Tenho recebido o registro que fazes dos amanheceres mirados da tua janela. O melhor trunfo que temos – os quase velhos – é poder gozar o amanhecer, constatar que ainda desta vez não morremos enquanto dormíamos.” E continua, já em tom de pura sacanagem comigo: – Estou relendo “Memória de mis putas tristes”, do Gabo, que começa assim: El año de mis noventa años quise regalarme una noche de amor loco com uma adolescente virgen.” Em seguida, só para despistar-me do seu verdadeiro intuito, o primo faz consideração técnicas sobre o estilo de García Márquez. Mas, logo volta ao que pretende: “Em particular, para mim, esse livro me relembra Rosalba – que eu chamava apenas Rosa – minha fornecedora de horas de prazer, para quem até fiz um poema intitulado “Rosalba Romero sobe aos céus”. Nunca soube a real idade dela, eis que Rosa mantinha sempre a pele fresca e lisa, loura, olhos verdes, mais para magra. Tratava-se muito bem. Mas morreu de cirrose, depois de duas cirurgias: uma para diminuir os peitos e outra para apertar a fenestra; cujos resultados ela exibia com orgulho. Rosalba gostava de rosas vermelhas e chocolates. Alegrava-se quando eu chegava com um litro de uísque, sua bebida preferida. Tudo era uma desculpa para acabarmos na cama. Primo, não se pode falar mal da mulher que tem esse gosto: rosas vermelhas, chocolate, uísque e sexo. Como vês, também já tive “mis putastristes”. Todavia, para quem escreve, nem tudo são flores, nem mesmo para García Márquez. Pois, lá pelas páginas tantas, ele solta um pum literário: “Nunca olvidé su mirada sombría mientras desayunábamos: Por qué me conociste tan viejo? Le contesté la verdad: La edad no es la que uno tiene sino la que uno siente.”.

E conclui Salomão Jorge: Que mierda Gabo! Que pasó? Carajo! A idade não é a que se tem, mas a que se sente. Ora bolas, fazer frase de almanaque, não é mesmo, Quincas? Enfim, sepor tudo perdoamos a todos, porque não perdoar a Gabriel, que nos deixou tanta fartura de beleza?

Salomão Jorge Boabaid Rovedo, eis o primo que mereço.


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Meu primo fescenino

Cada um tem o parente que merece. Eu tenho um primo, hoje morador do Cachambi, no Rio, que é um dos parentes que mereço. Gosta de literatura e musica clássica, frequenta salas de concertos e teatros do Rio, se dá com poetas, cordelistas, escritores, jornalistas e é um boêmio. Desses boêmios do bem, como se diz daqueles que até levam a mulher para o botequim, mas não põem fêmea dentro da casa e nem botam casa para outra mulher. Salomão é o nome dele. Salomão Jorge. Ponta de rama da frondosa árvore dos Abu Obeid, de Zahlé, Libano. Que nem eu.

Pois bem, outro dia, Salomão passou um mês conosco. Já a nossa cozinheira sabe dos pratos de sua preferência. São de comer não encontradiços no Rio, com facilidade. Ele até vai à feira comigo e ajuda na escolha dos peixes, camarões, sarnambis, jaçanãs e queijos. É disso,de cerveja de malte, que ele gosta. Também me acompanha quando vou à farmácia em busca dos remédios para hipertensão e mau colesterol elevado. Numa dessas vezes eu o ouvi pedir ao balconista, à meia voz, falando por um só canto de boca, a modo dos prisioneiros em fila para o almoço: – Quanto é o Cialis diário? Eo atendente: – Duzentos e trinta reais. E ele:– Me dá uma caixa.

Ai ele pagou e guardou no bolso a caixinha do remédio. Entramos no carro. Então, ele virou-se para mim e perguntou: – Primo, por que você me olhou daquele jeito quando pedi o Cialis? Você não usa? Respondi-lhe: – Quando preciso, não todo dia, claro. Você esquece que já tenho 78?- E eu 70 – respondeu-me o primo Jorge, acrescentando: – Mas eu compro e uso o diário só para manter a ilusão da juventude.

Faz já uns quinze dias, esse cara deu para mandar-me, via internet, suas recomendações de literatura lasciva. Outro dia recebi o texto inteiro de “A carne”, considerado um dos primeiros romances da escola naturalista no Brasil, no qual Júlio Ribeiro, conta-nos a história de uma virgem possuída “pela necessidade orgânica do macho,” conforme explica o autor. Recebi o texto desse belo romance como uma provocação, mas não passei recibo. Agora o primo me escreve: “Tenho recebido o registro que fazes dos amanheceres mirados da tua janela. O melhor trunfo que temos – os quase velhos – é poder gozar o amanhecer, constatar que ainda desta vez não morremos enquanto dormíamos.” E continua, já em tom de pura sacanagem comigo: – Estou relendo “Memória de mis putas tristes”, do Gabo, que começa assim: El año de mis noventa años quise regalarme una noche de amor loco com uma adolescente virgen.” Em seguida, só para despistar-me do seu verdadeiro intuito, o primo faz consideração técnicas sobre o estilo de García Márquez. Mas, logo volta ao que pretende: “Em particular, para mim, esse livro me relembra Rosalba – que eu chamava apenas Rosa – minha fornecedora de horas de prazer, para quem até fiz um poema intitulado “Rosalba Romero sobe aos céus”. Nunca soube a real idade dela, eis que Rosa mantinha sempre a pele fresca e lisa, loura, olhos verdes, mais para magra. Tratava-se muito bem. Mas morreu de cirrose, depois de duas cirurgias: uma para diminuir os peitos e outra para apertar a fenestra; cujos resultados ela exibia com orgulho. Rosalba gostava de rosas vermelhas e chocolates. Alegrava-se quando eu chegava com um litro de uísque, sua bebida preferida. Tudo era uma desculpa para acabarmos na cama. Primo, não se pode falar mal da mulher que tem esse gosto: rosas vermelhas, chocolate, uísque e sexo. Como vês, também já tive “mis putastristes”. Todavia, para quem escreve, nem tudo são flores, nem mesmo para García Márquez. Pois, lá pelas páginas tantas, ele solta um pum literário: “Nunca olvidé su mirada sombría mientras desayunábamos: Por qué me conociste tan viejo? Le contesté la verdad: La edad no es la que uno tiene sino la que uno siente.”.

E conclui Salomão Jorge: Que mierda Gabo! Que pasó? Carajo! A idade não é a que se tem, mas a que se sente. Ora bolas, fazer frase de almanaque, não é mesmo, Quincas? Enfim, sepor tudo perdoamos a todos, porque não perdoar a Gabriel, que nos deixou tanta fartura de beleza?

Salomão Jorge Boabaid Rovedo, eis o primo que mereço.