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Academia Maranhense de Letras

José Louzeiro

Cadeira 25


Meu amigo, Alcyone Barretto

15 de fevereiro de 2015

Apaixonado pela escola de samba Mangueira, do Rio de Janeiro, o respeitado advogado criminalista Alcyone Barretto também fez história no Carnaval.

imgBinaryÉ doloroso, mas vale relembrar um nome que marcou sua passagem pelos meios jurídicos e carnavalescos neste país – AlcyoneBarretto.

Na companhia dele, durante os carnavais, inaugurou-se o Sambódromo, onde Darcy Ribeiro imortalizou o desfile das escolas de samba.

A par disso, não fossem os maus dias que viriam, sempre envolvendo problemas de saúde, para Darcy Ribeiro o Carnaval deveria ser em todos os dias do ano. Uma única brecha dos ditos dias comuns, em geral sem graça e impróprios à inspiração, como lembrava Darcy, grande amigo do Alcyone.

Nosso jurista, sempre disposto a nos defender das acusações dos incautos, das quais fugíamos – por que AlcyoneBarretto era nosso advogado de fé e competência.

Reuníamo-nos com ele para rever estragos feitos durante a semana, por que em geral, éramos culpados das queixas dos leitores e, num passe de mágica, tornava-nos inocentes e abertos a novas lamentações dos que não se consideravam suspeitos.

Muito aprendi nos contatos jurídicos-jornalísticos com Alcyone Barretto e Bolívar Costa.

Nessa época, eu era simples repórter do Correio da Manhã de dona Niomar Novaes de Moniz Sodré, que curiosamente defendia nossos direitos: contra a ditadura de 1964. Ela formava, como cabeça de ponte, a nossa turma de rebeldes.

No final das tardes, quando as atividades jurídicas de Alcyone davam por encerradas, ele tinha uma clientela de primeira linha; lá estávamos nós, no escritório dele, esperando que chegasse.

Queixas a fazer e registrar não nos faltavam. Graças a ela (Niomar), escapávamos de várias idas à polícia, porque o regime era militar, e nós éramos anarquistas a favor da “pátria amada e idolatrada”; que sabíamos ser passageira, como tantas outras que havíamos vencido, só que dessa vez, a coisa parecia séria e alguns de nós chegamos a ser injustamente presos (menos eu).

Dona Niomar fugia dos empregados por dois motivos: por questões salariais e policiais; pois nunca tinha dinheiro para cobrir a folha de pagamento (quinzenal).

AlcyoneBarretto e Bolívar Costa, dois grandes amigos da época em que eu galgava posições no Correio da Manhã e, por causa disso, era perseguido como um dos redatores.

Muitas vezes tive que me esconder no próprio gabinete do delegado que era meu amigo e tinha um nome sugestivo: Bonfim. Eu entrava por uma porta, geralmente escura, para assinalar meu castigo; uma outra porta se abria e lá ia eu para o apartamento que havia alugado na rua Joaquim Murtinho, em Santa Teresa.