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Academia Maranhense de Letras

Sebastião Moreira Duarte

Cadeira 01


Mestre Noza

28 de agosto de 2015

(Das serras do sertão entre a Paraíba e o Ceará): Se algum dia chegar a ser verdade o que disse Antônio Conselheiro, que o Sertão iria mar, o mar começaria, sem dúvida, por estes imensos tabuleiros que se estendem por serras sem fim, nos Cariris do Ceará – Crato, Juazeiro, Barbalha – que negam, na facilidade dos olhos d’água e nos verdes dos baixios, toda a paisagem desolada que se contempla “ovunque il guardo io giro”. Não é esta a imagem que se faz dos sertões estorricados: basta compará-la com os Cariris paraibanos, a região mais triste e seca de todo o Nordeste.

Percorro estes rincões a caminho do Memorial Padre Cícero, no Juazeiro, ao qual me convoca Geová Sobreira, companheiro dos bancos do ginásio, economista, poeta, animador cultural e abrasado amante deste mundo místico. Ao prazer do reencontro e da revisita ao oásis caririense não me nego nem mesmo quando, ao longo da estrada, vou sentindo o alarma da “revolta nos países baixos”, vexame não desejável nem ao pior dos inimigos, como dizem os que têm inimigos.

Geová não é aquele “estatuário de colossos / cansado doutros esboços” que celebra o Poeta, mas não esboça coisas de pouca importância. Por sua proposição, sua iniciativa pessoal e financiamento de seu próprio bolso, ele entrega ao povo do Ceará, em bela exposição no Memorial Padre Cícero, a sua coleção de xilogravuras do Mestre Noza, reunida à do pesquisador Renato Casimiro, doadas ambas ao Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará.

Pois foi o maranhense Floriano Teixeira quem “descobriu para o mundo” a arte do Mestre Noza.

Se me perdoa o querido amigo Airton Marinho, direi que Maranhão não cultiva muito as artes da xilogravura e, pois, não terá maior familiaridade com o nome de Inocêncio Medeiros da Costa, o Mestre Noza (1897-1983). Sem exagero, pode dizer-se que, na terra dos folhetos de cordel de capa xilogravada, em que se destacaram tantos e tantos artistas populares, ele foi o Pelé de seu ofício. Sua importância como gravurista na madeira, guardadas as devidas proporções, está em paralelo com a perícia de Leonardo da Vinci ou Rembrandt, imortalizada em suporte mais “nobre”. Seus trabalhos ilustraram romances populares Brasil afora e foram vistos em exposições até no exterior. É ao Mestre Noza que se deve o estabelecimento definitivo dos traços fisionômicos do Padre Cícero, perpetuados na estátua do Horto do Juazeiro e na multiplicação da estatuária das feiras populares através do Sertão.

A propósito, Geová Sobreira contou-me esta história interessante: num dia de feira-livre, Noza levou algumas estatuetas do Meu Padim para vender. Eram as primeiras que havia esculpido. O Padre, passando por acaso entre as barracas dos feirantes, parou diante da banca do escultor, pediu para olhar uma daquelas peças e, depois de algum momento de decepção, perguntou-lhe:

– Inocêncio, a sua arte me fez feio demais. Haverá algum romeiro que tenha coragem de comprar uma coisa feia dessas? Será que eu sou tão feio assim?

– Ora, Meu Padim, que romeiro vai se atrever a achar que o senhor é feio?

Em 1961, a obra de Mestre Nossa foi exposta em Paris. Na mesma cidade, seu álbum Via Sacra foi editado em 1965, acompanhado de um amargurado poema de Gilmar de Carvalho.

Deixo para o fim esta informação, que de algum modo associa o nome de Inocêncio Medeiros da Costa do Maranhão. Foi o maranhense Floriano Teixeira quem “descobriu para o mundo” a arte do Mestre Noza. Em 1954, agregado ao núcleo criador da Universidade Federal do Ceará, o nosso artista de Cajapió viajou até o Juazeiro para ver o trabalho dos xilógrafos e santeiros que lá eram uma espécie de confraria. Quando ainda estava no Maranhão, Teixeira já havia tentado exercitar-se na xilogravura. Deslumbrado com a arte que encontrava no Cariri, sugeriu aos instituidores da Universidade cearense adquirirem os tacos de xilogravura do Mestre Noza e de outros artesãos. A xilogravura desvinculava-se de sua condição de “arte vinculada” à literatura cordel para fazer carreira autônoma. Exemplo dessa desvinculação foi o mesmo Floriano Teixeira, ilustrador, depois, da obra de escritores de renome internacional, como Jorge Amado.

Estou, pois, no Ceará, sem ter arredado pé do Maranhão.

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