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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Medicina e Literatura: mais que a vida

11 de julho de 2020

A Academia Nacional de Medicina lançou mão de uma iniciativa genial: um Simpósio sobre Literatura e Medicina, no dia 16 de julho, de 15h às 20h. O simpósio, proposto pelo acadêmico Gilberto Schwartsmann, será coordenado por ele e pelo acadêmico Ricardo Cruz. Serão relatores três membros da Academia Nacional de Medicina: Gilberto Schwartsmann, José de Jesus Camargo e José Osmar Medina; três membros da Academia Brasileira de Letras: Geraldo Carneiro, Domício Proença, Nélida Piñon; uma representante da FioCruz/PUC-RJ, a dra. Margareth Dalcomo.

Foi compilada a lista sugerida para o simpósio que será realizado pela Academia Nacional de Medicina. Trata-se de algumas das mais importantes obras literárias que interligam vivências e experiências – seja pelos relatos verídicos, seja pelas ficções, expondo alguma face das pestes que assolaram a humanidade. São as seguintes: Moby Dick de Herman Melville; A montanha mágica de Thomas Mann; Romeu e Julieta de William Shakespeare; Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago; Chão de Ferro (Memórias/ 3) de Pedro Nava; A Peste de Albert Camus e Decameron de Giovanni Boccaccio. As mudanças são o fio condutor entre elas. Algumas graduais, causadas por uma nova forma de pensar ante às experiências marcantes da vida; outras avassaladoras, causadas pela tristeza, doença e morte; outras, ainda, duradouras: as que impõem uma guinada radical de comportamento, ocasionada por fatores externos.

Diante da verossimilhança própria da literatura, acredito ter sido esta escolha uma difícil tarefa, porque são diversas as obras que favorecem o pensar sobre estes tempos pandêmicos. O que dizer de Dom Quixote, clássico de Cervantes, que narra a trajetória de um cavaleiro e seu fiel escudeiro a combater o mal, este na forma de moinhos de vento? O que pensar, ao ler o brilhante romance de Gabriel García Marquez, sobre sentimento e doença, em “O amor nos tempos do cólera”? O que sentir diante da história futurista, The Last Man (“O Último Homem”, de 1826), escrita por Mary Shelley, a qual se passa na Grã-Bretanha dos anos 2070 e 2100 e que tem uma praga como cenário?

Mais exemplos: Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra sobre Ela, de Ignácio de Loyola Brandão; A Aranha Negra, de Jeremias Gottheld e Um Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe. E ainda: A Dança da Morte, de Stephen King, que trata, vejam só, dos desdobramentos sociais ocorridos a partir da falta de controle de um governo em lidar com as pragas.

Enfim, como disse nosso conterrâneo Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”. Ler é viajar por mundos desconhecidos, onde tudo, mesmo que antigo, parece novo, por nunca termos vivido. Como, por exemplo, a experiência das sensações e aprendizados de uma vida sem aglomeração, sem estradas perigosas, sem engarrafamentos, sem rodoviárias e aeroportos superlotados e sem o risco de contaminação. Pelo livro, a viagem vale mais pela reflexão do que pelo deslocamento. Viajando pela leitura, ir é muito menos do que pensar. A literatura serve como aríete. Por ela, a humanidade também revive as crises e responde a elas. Por meio do que perpetuou o genial romancista Machado de Assis, qual realidade, além daquela, é evocada pela crise narrada em O alienista, em que a população se divide entre apoiar e atacar Simão Bacamarte, psiquiatra de métodos não ortodoxos?

Sem dúvida, a literatura inscreve na imortalidade não só a breve existência de poucos mortais, mas também seus tempos, suas épocas, suas crises e enfrentamentos, de um modo particular. Os fatos têm um sentido a mais do que a informação. A realidade que portam é dispersiva, quase um objeto de contemplação, quase as paisagens que compõem os sentidos mais profundos da viagem.

A Literatura é necessária, porque só a vida não é suficiente. Quando a Medicina lê obras literárias, está se alimentando não das doenças, mas da lição das dores; não da morte, mas da transitoriedade da carne; não das pragas, mas do que elas podem ensinar sobre existência e poder, quando o que surpreende nas pandemias é a fragilidade humana e os limites das egoístas e ambiciosas sociedades.