Blog

Academia Maranhense de Letras

Joaquim Itapary

Cadeira 04


Luar entre as cortinas

4 de junho de 2015

Sedutora e faceira, a lua abre seu imenso olho amarelo por entre as cortinas da minha janela como se desejasse anunciar-me: ô cara, hoje estou cheia, empanzinada de luz até no mais profundo da minha mais soturna cratera e tu ficas aí sentado, diante de uma máquina? Não te esqueças da advertência daquele sacerdote, perito no desvendamento dos sortilégios dos astros, de que nesta terra dos maranhões até o sol mente. Portanto, não te confies em que estarei eternamente solta nesta imensidão azul a iluminar tuas noites, desimpedida e livre, absolvida do perpétuo fadário cósmico, entregue a teus caprichos. Levanta-te, rápido, veste uma camisa listrada e corre para a praia, onde estarei desnuda para ti. É bem aí; é pertinho.

Assenta-te à mesa de um desses barzinhos que rescendem os cheiros de sargaços do mar, onde lavo meu sexo e enxaguo meus cabelos, pede a bebida preferida, uns camarões fritos e te demora a olhar para mim, enamorada e terna criatura entregue à tua vontade. Nada fales, nem pisques sequer, que logo estarei alta, sem mais esteiros de luz sobre o mar, sendo até bem provável que algumas nuvens desagarradas, invejosas do meu bem querer, ancestral preito que os homens me devotam, ponham negra fumaça em teus olhos e percas a oportunidade de convidar-me para a tua cama. Pois, bem sabes que dia de muito sempre será véspera de pouco.

Vai, aperta o passo, abre teu coração deixa que transbordem as espumas do teu copo, douradas da minha luz.

Ah, é isso mesmo. Se te demoras, decerto te estarás condenado a um mês de desencanto e somente me terás à tua mercê após se preencherem de restaurada luz as curvas pontas do meu diadema, que, tímidas, despontarão de novo no crescente. Entretanto, tu terás apenas a compaixão de estrelinhas do meu séquito, de cintilações fugazes, inexperientes ninfas do amor.

Vai, aperta o passo, abre teu coração deixa que transbordem as espumas do teu copo, douradas da minha luz. Umedece os teus lábios e oferece à tua amada o doce e misterioso beijo desta noite de mel. Então, hoje gozarás os favores femininos de dupla companhia no teu leito de percal e te esquecerás do quanto doem as dores intensas da solidão.

jitapary@uol.com.br