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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


LEMBRANDO MÁRIO MEIRELES

29 de abril de 2020

Esta é uma lembrança carinhosa para o amigo e não sobre o intelectual e historiador Mario Meireles. Foi escrita por ocasião de seu falecimento em 2003 e continua pertinente em tempos de desvalorização dos idosos em que uma pandemia se propõe a varrê-los da face da Terra. Mário Meireles fazia parte daquele reduzidíssimo número de pessoas que estão no meu rol de gente que não deveria morrer nunca. Sempre achei um desaforo muito grande serem suprimidas da sociedade, sem mais nem menos, pessoas do gabarito do Professor Mário, enquanto outros, cuja morte bem traria um desafogo a este planeta superlotado, pululam pelo mundo afora, poluindo e consumindo nossos recursos naturais, quando não se ocupam com coisa pior. Perdoem o pensamento politicamente incorreto, mas os sentimentos que me assomam ao peito neste momento são de indignação e frustração. Frustração por tão grande e inesperada perda; indignação pela causa mortis tão banal – dengue, uma doença que, em pleno Século XXI, ainda não foi erradicada, e nos confirma mais ainda como um país do Terceiro Mundo. O impacto causado pela morte do homem de letras Mário Meireles repercutiu em todo Estado. O pesar instalou-se não só na Academia Maranhense de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico dos quais era membro e decano ou na Universidade Federal, onde foi fundador e exerceu quase todos os cargos importantes docentes e administrativos, como nas rodas intelectuais, estudantis e de simples populares. Sobre mim o impacto foi tanto maior por ser ele, além de tudo o que foi dito, o último amigo vivo do meu avô, Henrique Costa Fernandes, a quem recebeu na AML, em 1948. Mário Meireles era também conhecido e admirado por milhares de estudantes que utilizaram e utilizam a sua História do Maranhão, obra de referência e consulta fundamental para o entendimento da nossa terra e o destino da nossa gente. Alguns desinformados, surpresos com a comoção geral, poderão alegar, à guisa de consolo, que o escritor viveu o suficiente: longos e produtivos 88 anos – muito mais que a maioria das pessoas comuns; que cumpriu sua missão de professor e homem público, ocupando e dignificando os altos cargos que lhe foram confiados, e que, como historiador, produziu valiosa e alentada obra, cerca de 30 publicações, aspergindo todos esses anos cultura e erudição nas nossas tão duras cabeças. Nada de espantar que fosse chegada a sua Hora . Estes, certamente, não conheciam o Professor Mário Meireles. Não conheciam o pesquisador incansável, a escrever diariamente, lúcido, conservando intactas todas as suas faculdades físicas e mentais: ultimamente vinha preparando um livro sobre a evolução urbana de São Luís, que não chegou a ser publicado. Não sabiam da sua participação efetiva em cerimônias e eventos importantes. Nas posses da Academia Maranhense de Letras era sempre dele, como decano, a missão de apor o colar no membro recipiendário. Eu tive esse privilégio. Não chegaram, essas pessoas, a desfrutar do prazer de conversar com o gentleman, dono de fino senso de humor, por vezes temperado de ironia, por vezes terno, mas sempre um interlocutor vivaz, informado das últimas notícias, distante da fastidiosa conversa de velhos que discorrem sobre doenças e o infortúnio de suas limitações. Lembro-me que, em fins de 2002, estávamos na AML, lado a lado e de pé, no velório do saudoso acadêmico Eloy Coelho Neto. O Professor Mário, como sempre, elegante e empertigado, mesmo assim, senti-o cansado e ofereci-lhe uma cadeira: Por favor, Professor, sente-se. E ele, rápido, Está me chamando de velho, mocinha? Fique sabendo, só vou me sentar para agradá-la. Claro que adorei o mocinha. Em seguida, ele volta à carga, diz-me, observando nosso querido Dr. Eloy, Este rapaz passou-me a perna. Era a minha vez e não a dele. Note-se que o “rapaz” estava na casa dos setenta. Era assim o Professor Mário Meireles. Ele era, como se costuma dizer agora, um ser humano integral. Chefe de família exemplar, adorado pelas filhas e netos, profissional íntegro, homem honrado, intelectual completo e atuante. E se tratando dele, por ser a mais estrita verdade, vale usar o chavão: Já não se fazem homens como Mário Meireles.